Conselho afasta médico acusado de erro
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quarta-feira, 23 de julho de 1997
Antônio França Foz do Iguaçu 
Ney de SouzaBarbaridadeVera Lúcia: demora, desmaio e injeção que virou úlceraO médico Felix Vieira, acusado pela empregada doméstica Vera Lúcia Ferreira de ter aplicado uma injeção de éter em sua perna, foi afastado do cargo de encarregado de medicina da Secretaria Municipal de Saúde de Foz do Iguaçu. O erro médico foi revelado pela Folha em 27 de junho.
O afastamento do médico foi anunciado ontem pelo Conselho Municipal de Saúde. De acordo com a denúncia de Vera Lúcia, ela teria recebido uma injeção de éter (substância anestésica de uso externo ou inalante) na perna. Ela conta que levou o filho Marcolino Ferreira, 14 anos, para ser consultado no posto de saúde no bairro Morumbi 1 e reclamou do tempo de espera. Depois de duas horas na fila, ela sentiu tonturas e desmaiou.
Segundo a denúncia, já protocolada no Ministério Público e no Centro de Direitos Humanos de Foz do Iguaçu, ao invés de Marcolino ser atendido, o médico Felix Vieira teria dito que a mãe do adolescente estaria precisando de cuidados mais urgentes. No entanto, Vera Lúcia diz que ele a teria levado ao consultório apenas para torturá-la.
Ele chegou a me discriminar, dizendo que negros só vão ao posto de saúde para causar problemas e me aplicou a injeção de éter, diz Vera Lúcia. Segundo o vice-presidente do Centro de Direitos Humanos, José Elias Aiex Neto, que também é médico, a injeção aplicada em Vera Lúcia foi uma forma de tortura.
A presidente da Associação Brasileira de Enfermagem (Aben), Maria Goretti Lopes, diz que não há hipótese dentro da medicina para se aplicar uma injeção de éter. Dois meses depois de receber a dose de éter, uma junta do Pronto Atendimento Médico (PAM) constatou que a ferida provocada pela injeção transformou-se em uma úlcera externa.
Um novo diagnóstico feito na perna da vítima - que corria o risco de ter o membro amputado - aponta avanços no tratamento da ferida provocada pela injeção. Mas, por outro lado, estão aparecendo feridas em todo o corpo da mulher. Os médicos temem que as feridas também se trasformem em outras úlceras externas.
O médico foi afastado ontem mesmo das suas funções. Segundo nota divulgada pela Secretaria da Comunicação Social da prefeitura, Vera Lúcia receberá apoio médico e medicamentos para o tratamento das sequelas. Procurado pela Folha, Felix Vieira disse que não quer comentar o assunto.
O Conselho Regional de Medicina (CRM) já abriu processo interno para investigar o caso. Segundo o CRM, Vieira pode perder seu registro profissional. Neste caso, não poderá mais exercer a profissão.


