Conseguir carteira dá o maior trabalho
PUBLICAÇÃO
domingo, 31 de janeiro de 1999
Walter Ogama 
Sono, cansaço e revolta parecem tomar conta dos rostos das pessoas que, uma a uma, ocupam seus lugares na fila que se forma diariamente na calçada em frente à Subdelegacia de Londrina do Ministério do Trabalho. M, uma menor acompanhada pelos pais, é a ponta. Os três chegaram ao local às 4h10 da madrugada. A menina conseguiu um emprego e tem prazo para providenciar a Carteira de Trabalho. Na terça-feira, 19 de janeiro, ela e os pais já haviam enfrentado a mesma fila. Chegaram por volta das 6 horas e não foram atendidos. A explicação, segundo o mais disponível funcionário daquela repartição no momento, um guarda de uma empresa terceirizada:
- Acabou a senha, agora só amanhã.
Diante de olhares indignados, palavrões ditos pela metade e questionamentos sem respostas, o guarda improvisou justificativas, segundo o seu conhecimento sobre o assunto:
- Só tem 25 senhas por dia para fazer carteira nova e 25 para renovação. Acabou, não posso fazer nada. Tem que chegar amanhã bem cedinho.
Foi o que M e os pais fizeram na quarta, dia 20. Chegaram às 4h10 e conseguiram ser os primeiros. M descansou no carro da família, estacionado em frente ao prédio do órgão, na Avenida Rio Branco (Jardim Shangri-lá A, zona oeste). Os pais fizeram revezamento naquela ponta de fila, que ficou sem ninguém atrás até 10 minutos depois da chegada deles. Às 4h20, ganharam a companhia de Roberto Duran, 20 anos, acompanhado de um amigo. Ambos já estão empregados, mas estão providenciando a Carteira de Trabalho pela primeira vez.
Depois chegaram K e o pai, também para a primeira via do documento. Em seguida o grupo de três meninas, todas menores, trazidas pelo pai de uma delas; a garota nissei, de carona com o irmão, e o adolescente Wellington, 17 anos, levado pelo pai, todos enfrentando a fila pela segunda vez e precisando da primeira via do documento. Os ponteiros do relógio, a estas alturas, marcavam 5h20. Entre acompanhantes e requisitantes da Carteira de Trabalho, a fila já reunia 18 pessoas.
Mario CesarQuase tão difícil quanto um empregoFoi quando chegou a primeira candidata à renovação do documento, uma senhora. De pouca conversa, ela apenas balbuciou que havia solicitado dispensa por algumas horas da manhã no emprego. Também pela segunda vez estava naquela fila. Havia sido difícil convencer o chefe que tinha perdido a senha na primeira vez, revelou, cabisbaixa.
Sem nada mais comentar, tirou da bolsa uma folha de jornal que trouxe dobrada, estendeu-o sobre o seu pedaço de calçada na fila, acomodou-se como se tivesse à disposição uma confortável poltrona e fez aquilo que é direito de qualquer ser humano, inclusive os trabalhadores, durante a madrugada: cochilou e em alguns momentos chegou aos roncos, conforme confidenciou o menino da frente.
A madrugada promete sol forte para o dia que vai raiar. Estrelas tomam o céu e as manchas de nuvens não ameaçam chuva. As luzes externas da subdelegacia estão acesas, são três potentes holofotes instalados próximos à grade que cerca a edificação. As pessoas continuam chegando e a fila ganha comprimento. Às 6 horas, já são 34 pessoas, incluindo alguns acompanhantes.
Dez minutos antes, sem esconder os bocejos, ocuparam suas vagas as adolescentes Tatiane Aparecida dos Santos, 16 anos, e Silmara Rossana Bianchi, da mesma idade. Elas vieram juntas, Tatiane acompanhada pelo pai e Silmara pela mãe. As duas famílias moram no Jardim Tókio, zona oeste de Londrina. As meninas cursam a 3ª série do 2º grau.
Tatiane ainda não trabalha, mas o pai, Pedro Natal, diz que a filha já tem um emprego em vista. Silmara é bolsista em uma das unidades da Copel na cidade e tem esperança de conseguir em breve um trabalho remunerado. Pela ordem de chegada, as duas adolescentes receberiam as senhas de números 24 e 25 para pessoas que precisam da primeira via da Carteira de Trabalho. Seriam...
Mais gente, mais sono e mais cansaço. O organismo reclama: a brisa do comecinho da manhã parece vento gelado. Os blocos de pessoas que até minutos antes conversavam, animadas, já não conseguem esconder o tédio. Os holofotes são apagados, mas é horário de verão e ainda está escuro às 6h15. Já são 73 pessoas perfiladas, com o grupo fazendo a dobra da esquina. Alguém alerta:
- Me informaram ontem, por telefone, que são 25 senhas para carteiras novas e 25 para renovação. Essa gente do final da fila está perdendo tempo.
Ninguém, entretanto, arreda o pé do lugar. Quem ouve e está depois da curva da esquina faz de conta que não é com ele. O guarda Jurandir, da empresa prestadora de serviços, chega às 6h50, quando a fila reúne 86 pessoas. Duas filhas e a ex-sogra dele também, mas elas ocupam o final da fileira de pessoas.
Só depois uma das adolescentes procura pelo pai, no portão principal da subdelegacia. A conversa desperta curiosidade, as pessoas querem saber o que está ocorrendo. A menina retorna ao seu lugar e arranca suspiros de alívio. Por pouco tempo...
Passam das 7 horas e a agitação começa a tomar conta do prédio. Algumas pessoas entram na subdelegacia, há quem aposte que a senha será em breve distribuída. O guarda Jurandir percorre a fila pelo lado de dentro da grade, até localizar as filhas. Com as mãos, faz sinal para que elas entrem pelo portão. A cena gera desconfiança.
As senhas começam a ser distribuídas às 7h40 pelo guarda Jurandir. Prancheta na mão, ele pergunta a cada pessoa se é a primeira ou a segunda via do documento que ela precisa. Faz anotações e entrega a senha, naquele momento um papel valioso.
Tatiane e Silmara aguardam, certas que terão direito às suas senhas. A alguns passos delas, o guarda Jurandir avisa:
- Quem vai fazer a primeira via da carteira pode ir embora. Acabou a senha. Só tem para segunda via.
A primeira reação de Tatiane é de espanto. Depois, a revolta, endossada pelo pai, Pedro Natal:
- Acho uma pouca vergonha isso. Falta de vergonha do governo. Se tem bastante pessoas para fazer carteira, todas têm que ser atendidas.
Silmara, a estudante bolsista, apenas acrescenta:
- É muita falta de consideração com a gente.
Exatamente às 8 horas, a porta da subdelegacia é aberta. As duas filhas do guarda Jurandir já ocupam duas cadeiras reservadas para pessoas que aguardam a chamada do número da senha. M, a primeira da fila, e Roberto Duran, o segundo, saem praticamente juntos, às 8h15, depois de cerca de 4 horas de fila. É Duran quem diz:
- Isso chateia muito, principalmente o pessoal que chegou lá pelas 6 horas. São pessoas que ficaram quase duas horas na fila e só depois da sete e meia ficaram sabendo que não seriam atendidas naquele dia.
O guarda Jurandir, entre uma ocupação e outra, não faz mistério sobre as duas adolescentes que, na ordem de distribuição das senhas, tomaram os lugares de Tatiane e Silmara:
- São minhas filhas. Eu pedi pro pessoal aí do Ministério e o pessoal deixou. Porque eu não posso fazer isso por conta própria, alguém tinha que autorizar.
Mais tarde, por volta das 14h30 do mesmo dia, o chefe do setor de fiscalização da subdelegacia, Aurélio Sugayama, que no dia 20 respondia interinamente pelo órgão durante as férias do titular, confirmou por telefone que a cota para Londrina é de 25 senhas para a primeira via da Carteira de Trabalho e de 25 senhas para continuação.
- A cota é estabelecida por Curitiba, porque lá funcionam atualmente dois equipamentos para atender todas as subdelegacias do Paraná. Alguns municípios, onde prefeituras ou outros órgãos firmam convênios, as carteiras ainda são no sistema antigo, preenchidas manualmente.
Segundo Aurélio, a conclusão das obras de reforma do prédio da subdelegacia estaria prevista para este final de mês. No mesmo período, disse o interino, deveriam chegar a Londrina uma impressora e dois scanner, equipamentos que vão permitir a confecção das carteiras dos londrinenses na própria subdelegacia, sem a necessidade delas serem feitas por Curitiba.
- A partir disso, vamos ter condições de atender mais pessoas e fora do período atualmente estabelecido.
Sobre as senhas que Tatiane e Silmara deixaram de receber naquele dia, Aurélio Sugayama promoteu providências, mas evitou comentar o assunto no primeiro contato com a reportagem. Mais tarde, ainda no dia 20, a Folha voltou a conversar com o interino:
- Eu fiz uma reunião de emergência com todos os funcionários e eles disseram que não autorizaram o guarda a colocar as duas filhas na frente. E o guarda justificou que a única coisa que ele fez foi colocar as filhas e a ex-sogra dentro do prédio antes do horário de abertura da subdelegacia.
Tatiane e Silmara sabem que não foi assim. De qualquer forma, Aurélio Sugayama disse que abriria uma sindicância. Segundo ele, a situação testemunhada pela reportagem é atípica. Normalmente, disse Aurélio, todas as pessoas que enfrentam a fila conseguem uma senha.
- Nesse começo de ano, muitas pessoas querem tirar a Carteira de Trabalho só para viajar, porque precisam de um documento.
Dias depois, a informação fornecida na subdelegacia (veja texto neste caderno) era de que as pessoas que deixavam de receber a senha de manhã eram orientadas a retornar à tarde. A quantidade de senhas diárias também havia sido alterada. A reportagem acompanhou as filas na Subdelegacia de Londrina do Ministério do Trabalho nos dias 19 e 20. Em nenhum dos dois dias a orientação foi comunicada.


