Conjunto Mister Thomas resiste à dengue
Área de abrangência da UBS apresenta baixos índices de notificação da doença; característica do bairro e trabalho educativo são alguns dos motivos
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 04 de março de 2020
Área de abrangência da UBS apresenta baixos índices de notificação da doença; característica do bairro e trabalho educativo são alguns dos motivos
Vitor Ogawa - Grupo Folha 
A Prefeitura de Londrina tem divulgado, ao longo de nove semanas, mapas colorindo os bairros de acordo com a incidência da dengue. Os que possuem alta incidência aparecem em vermelho; os com incidência crescente são em amarelo. Aqueles que não se enquadram em nenhum dos casos são mantidos na cor bege. Uma região em especial tem chamado a atenção da equipe de endemias da secretaria municipal de Saúde. A região da UBS do conjunto Mister Thomas (zona leste) tem se mantido com baixa incidência de notificações, e se assemelha a uma ilha cercada e regiões em vermelho.

O que intriga é que a zona leste é a segunda colocada em casos confirmados da cidade, com 1.367 registros, perdendo apenas para a norte, com 1.404 pacientes que acusaram ter a doença pelos exames laboratoriais. A diretora de Vigilância em Saúde, Sônia Fernandes, atribui o fenômeno às características do bairro. “O Mister Thomas fica geograficamente isolado dos outros bairros, porque fica envolto pelos fundos de vale e isso o deixa protegido. O Aedes (aegypti, mosquito transmissor da dengue) é urbano, então ele não passa pela mata. A população de lá também está cuidando. É diferente do centro, que é tudo aberto e o mosquito circula mais livremente."
FUNDOS DE VALE
Além disso, ela ressalta que nos fundos de vale os mosquitos enfrentam seus predadores naturais, como a libélula e a rã. “Por este motivo é preciso usar o fumacê com cautela, pois ao se aplicar esse veneno ele atinge os predadores naturais do mosquito também”, enaltece.
A reportagem foi ao Mister Thomas e constatou que está mais limpo que outros bairros visitados recentemente. Os moradores das imediações que recolhem periodicamente o lixo espalhado nas ruas do bairro e nos fundos de vale. Diferente de outras unidades de saúde, que ficam "lotados" de pacientes com suspeita de dengue, a UBS do bairro estava praticamente vazia, na tarde de segunda-feira.

TRABALHO EDUCATIVO
A dona de casa Thais Moraes do Couto, é de Belém do Pará (PA) e se mudou para o bairro em julho de 2019. Ela acredita que um dos motivos da baixa incidência de dengue é o trabalho educativo nas escolas. “Os professores explicam tudo às crianças. A cobrança está vindo delas. Eu tenho três filhas (7, 9 e 11 anos) e são elas que estão nos incentivando bastante a fiscalizar. Uma delas foi no canto do quintal e pegou as garrafas e tampinhas. A outra filha fez um trabalho de uma semana recolhendo garrafas pet”, destaca. Ela era uma das poucas pessoas na UBS do bairro e nem estava ali por causa da dengue.
A dona de casa Elisângela Melo da Silva, mora há sete anos no bairro e revela que nem sempre o bairro foi assim. “Já tivemos epidemias aqui, mas agora a população está bem mais consciente. As escolas oferecem palestras. Na primeira reunião com os pais deste ano teve uma palestra com duas mulheres que trabalham no controle de dengue. Eles sempre estão conscientizando. Aqui no conjunto eu não sei de nenhum caso de morador do bairro com dengue”, afirma.
“Meus filhos trazem os trabalhos e tarefas da escola para casa e tudo fica entre família. Eles aprendem como fazer o checklist na escola e trazem essa ação para a nossa casa. Eles ficam falando ‘mãe, tem vasilha atrás de geladeira que junta água’. Eu sinto orgulho, porque na nossa região é o único bairro que não tem dengue”, destaca Silva.

ORIENTAÇÃO
A estudante de psciologia Adriana Braga Xavier afirma que as pessoas do bairro se conscientizaram que a dengue é perigosa e têm cuidado melhor dos quintais. “Aqui em casa a gente pega água da chuva para lavar a calçada e lavar o caro, mas não deixa a água parada por muito tempo. Eu sempre estou virando os baldes para não deixar água parada. Eu tenho meu filho e a gente ensina ele desde pequeno a também cuidar da casa. Na escola, teve uma reunião com a comunidade e explicaram tudo”, explica.
A diretora da Escola Municipal Pedro Vergara Corrêa, Simone Aparecida de Oliveira, explica que assim que começou o ano letivo foi repassado aos professores a incumbência de orientar os alunos. “Cada turma foi trabalhando de uma maneira. Teve turma que aprendeu a fazer o check list, outra fez um teatro", exemplifica. "No dia 12 de fevereiro, 400 pessoas do bairro assistiram uma palestra do setor de endemias da secretaria. A gente tem visto o retorno no bairro, mas acho que precisa muito mais." (Colaborou Micaela Orikasa)


