Érika Pelegrino
De Londrina
‘‘Quando nós chegamos aqui para ver a casa para alugar tinha um macaco na praça e uma cotia atravessando a rua... Nós pensamos: bom, estamos no sítio, é aqui mesmo que vamos ficar.’’ O depoimento de Piti Miranda, moradora do Conjunto Vivendas do Arvoredo, na zona sul de Londrina, traduz, em parte, a característica de tranquilidade do bairro.
A chegada de Piti Miranda e a família no Vivendas foi há pouco mais de quatro anos. Hoje não se vê mais macacos e cotias pelo bairro, mas o lugar ainda preserva um certo ar de zona rural, o que o diferencia de outros bairros. Rodeado por matas e com apenas cinco ruas e uma única entrada - pela PR-445, no final da Avenida Harry Prochet - o Vivendas do Arvoredo parece realmente um pequeno oásis de tranquilidade encravado na cidade.
Para quem chega no lugar a impressão é de estar no campo. Mas para quem mora lá há 16 anos, como Manoel de Cardoso Oliveira, o lugar já não é o mesmo e nem se compara com paz de outros tempos. ‘‘Eu costumava acordar com o barulho de macacos no quintal, buscando alimento. Hoje não há mais macacos e tem até acidente de carro nestas ruas pacatas’’, lamenta.
Há pouco mais de três anos também se via pelas ruas e quintais do bairro cotias, pacas, veados, jabutis que viviam na mata existente no bairro, de propriedade de José Eduardo Rocha Cabral. Durante muito tempo o lugar foi cuidado por um senhor conhecido como Zé do Mato, que alimentava os animais, segundo contam alguns moradores.
Florinda de Carvalho, 68 anos, uma das moradoras mais antigas do lugar, está no Vivendas do Arvoredo há 18 anos. Ela costumava levar os netos para passear na mata. Piti Miranda também era uma das frequentadoras da área verde, em companhia do marido e da filha. A família admirava as perobas e os animais do lugar.
Os moradores não sabem direito o que aconteceu com a mata. Manoel de Cardoso Oliveira conta que Zé do Mato foi demitido há cerca de três anos e os animais foram retirados da mata. Alguns morreram, segundo Piti Miranda: ‘‘De vez em quando aparece uma lebre e ainda tem os passarinhos’’.
As perobas também correm risco, segundo Piti Miranda. As bases das árvores estão danificadas por pequenos roedores. ‘‘Antes o Zé do Mato tomava conta. Agora a área está meio abandonada.’’ Sem cuidados, os passeios passaram a ser impraticáveis.
Com lixo e fezes humanas espalhados pela mata, o lugar se transformou em foco de mosquitos. Por consequência, a segurança dos moradores também ficou ameaçada. ‘‘A noite a gente acorda com barulho de gente entrando na mata’’, diz Piti Miranda.
Os danos ambientais também são provocados por alguns moradores que jogam lixo, inclusive móveis e eletrodomésticos estragados, principalmente na Rua Cândido Portinari, a última rua do bairro. ‘‘As pessoas precisam saber o que fazer com o lixo que produzem. Aqui em casa nós reciclamos o lixo há mais de cinco anos’’, recomenda a moradora.
A falta de cuidado de alguns moradores também deixa suas marcas pela praça que fica na entrada do bairro, segundo Piti Miranda. ‘‘Quase toda noite moradores se reúnem aqui, isto é legal. Só que depois que as pessoas saem deixam o lixo. Não custa pegar uma vassoura em casa e limpar o lugar. Não é só curtir, precisa cuidar também.’’
Nina Cardoso, presidente da associação de moradores, afirma que outro terreno, no centro do bairro, deveria ter sido transformado em praça desde a inauguração do Vivendas do Arvoredo. ‘‘Isto não aconteceu e acabou aparecendo um proprietário, que futuramente fará uma praça no lugar. Só que nós queremos agilizar a obra.’’
Nina entrou com um pedido na prefeitura para que o terreno seja transformado em praça e outro para a colocação de um poste na Rua Cruz e Souza, que não tem iluminação. Segundo ela, os pedidos estão encaminhados e em breve deverão ser atendidos.
Mesmo com os problemas comuns de um bairro como outro qualquer, o Vivendas do Arvoredo mantém uma característica própria: a maioria dos moradores busca a paz e a tranquilidade da zona rural. O ônibus, por exemplo, não entra no Vivendas. Os coletivos pegam os passageiros apenas na entrada. É para evitar a poluição sonora e para que desconhecidos não fiquem observando o bairro, segundo a moradora Florinda de Carvalho.
O comércio no Vivendas se restringe a uma pequena vendinha, pois a maioria dos moradores prefere manter desconhecidos longe do lugar. As famílias que não possuem carro discordam. Nina Cardoso, por exemplo, diz que gostaria que existisse uma padaria por perto.
Quanto à poluição sonora, Florinda de Carvalho conta que há 18 anos não se ouvia barulho de carro depois das 20 horas, pois na Avenida Harry Prochet existiam poucas construções. ‘‘Hoje até de madrugada a gente ouve barulho de carro dentro do bairro.’’
A movimentação na PR-445 também é maior. Os moradores até já pedem um semáforo na entrada do Vivendas. ‘‘Já aconteceram acidentes, inclusive um atropelamento com morte’’, informa Florinda de Carvalho. O engenheiro do Departamento de Estradas de Rodagem (DER) Marco Aurélio Sguario esclarece que para a instalação do semáforo é necessário que os moradores solicitem ao órgão um estudo de melhoria de travessia no local. ‘‘O DER irá analisar se o semáforo é a melhor solução para o local’’, informa.

VIVENDAS DO ARVOREDO
ONDE FICA:
Zona sul de Londrina - acesso pela PR-445
Peculiaridades do bairro: apenas cinco ruas
Característica: clima de tranquidade e abundância de vegetação, inclusive com área de mata
Nome oficial: Residencial Igapó IINem ônibus entra no bairro onde os moradores gozam de
paz igual ao do campo
Fotos Dorico da SilvaBOM LOCALMoradores do Residencial Igapó II, bairro mais conhecido como Vivendas do Arvoredo, dispõem de área para a prática de caminhada (acima); ao lado, perfil de uma das casas do Vivendas: exuberânciaDorico da SilvaJosoé de CarvalhoObras em andamento e material na calçada, uma das queixas de alguns moradores (acima); ao lado, Piti Miranda e as crianças na mata do bairro

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