CONHECIMENTO COMPARTILHADO - Pseudociência e era do irracionalismo
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 16 de maio de 2018
Vítor Ogawa<br>Reportagem Local 

O farmacêutico André Bacchi, um dos organizadores do Festival Pint of Science, explicou que abriu o evento com o tema "Pseudociência e a era do irracionalismo", porque muitas áreas estão usando o linguajar da ciência, mas não se trata de ciência. "A ideia é desmistificar a ciência e aquilo que finge ser ciência para ganhar credibilidade. Existe muita coisa que não faz sentido e ganha termos científicos para ter mais credibilidade. É errado. Para ser considerado ciência deve seguir uma metodologia muito séria para que se demonstre que aquilo tenha efeito ou funcione de determinada maneira", ressaltou o professor de Farmacologia na UEL (Universidade Estadual de Londrina).
"A gente quer que se discuta ciência no bar também para não haver risco em dizer que a Terra é plana ou coisas que já determinamos há muito tempo que não são; (queremos evitar que) as pessoas voltem à Idade Média sem a menor necessidade. Esse retrocesso em parte a gente tem uma certa culpa porque ficou muito tempo sem divulgar a ciência, ela ficou dentro da universidade. É preciso acreditar na ciência, que foi que trouxe todo esse avanço em áreas como a medicina, que aumentou a expectativa e a qualidade de vida", apontou.
Ele exemplificou o movimento antivacina como uma das aberrações decorrentes da falta de informação. "A internet é um catalisador de muitas coisas, boas e ruins. Existem sites sem o menor tipo de fonte confiável e as pessoas passam a compartilhar aquilo sem checar a fonte e a gente acaba chegando a problemas sérios", criticou. Segundo ele, o movimento antivacina surgiu porque um médico conduziu mal uma pesquisa anos atrás e constatou erroneamente que a vacina estava associada ao autismo. "Depois de um tempo refizeram o experimento várias vezes e constataram que o uso da vacina não tinha relação alguma com o autismo. O médico perdeu o seu registro e acabou sendo banido da ciência, mas o impacto do que ele divulgou naquela época continua repercutindo até hoje, com as pessoas propagando isso", desabafou.
Bacchi destacou que a vacina fez com que doenças como a varíola ou a poliomielite fossem praticamente erradicadas e agora está acontecendo o retorno dessas doenças, porque as pessoas estão deixando de se vacinar. "Esse é um dos grandes objetivos do Pint of Science. A gente quer justamente trazer a ciência para fora da universidade para impedir que esse tipo de retrocesso aconteça", apontou.
ASTROBIOLOGIA
Um dos palestrantes do Pint of Science foi o professor do Departamento de Química da Universidade Estadual de Londrina Dimas Zaia. Ele é vice-presidente da Sociedade Brasileira de Astrobiologia e discorreu sobre questões envolvendo a origem da vida e a procura de vida extraterrestre e o que isto tem a ver com irracionalismo. "Sobre a questão da origem da vida existem os criacionistas, que acreditam na necessidade de um ser supremo para criar vida. Sobre aqueles que acreditam que a Terra é plana, eu acho que as pessoas nunca viram foto de satélite. Minha área é a astrobiologia que tem três grandes principais: Como a vida começou, como ela evoluiu, se existe vida em outros lugares e o que vai acontecer com a vida em nosso planeta e em outros lugares", destacou.
De acordo com ele, uma das razões para a desinformação da população é a falta de educação científica. "As pessoas não entendem como a ciência funciona e grande parte da culpa é das pessoas que fazem ciência, por isso esse tipo de evento como o Pint of Science é extremamente importante. Outra questão é a crença pessoal. Algumas delas acham que não podem acreditar em algumas coisas. É uma combinação das duas coisas", apontou. Ele também atribui a parte da mídia esse problema da desinformação. "Você pega o History Channel, que é um canal que deveria divulgar ciência e divulga pseudociência."
Segundo o professor, para combater isso é preciso divulgar a ciência. "A ciência tem defeitos e virtudes. Não temos resposta para todas as coisas, mas grande parte do que temos hoje devemos ao avanço científico. Temos pouca gente na divulgação da ciência e pouco espaço na mídia", apontou.
Ele citou como um bom exemplo para divulgar a ciência o evento chamado "Conversando com cientistas, que é realizado por ele e pelo professor Rogério Fernandes de Souza, ambos da UEL. "Levamos um cientista para uma escola pública, onde os alunos podem fazer qualquer pergunta. Desde salário, o que gosta de comer, entre outras coisas. Fizemos uma pesquisa com os alunos antes e depois do evento. Antes achavam que o cientista era inalcançável e depois que eles conheceram, passaram a ver o cientista como uma pessoa como outra qualquer. Esse evento Pint of Science também é uma outra forma de popularizar a ciência", relatou.


