Congresso reúne 500 em Curitiba
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 18 de novembro de 1997
Curitiba 
Marcelo AlmeidaEncontro reúne ambientalistas brasileiros e estrangeiros até 5ª feiraUm quadro pouco otimista do futuro das áreas de preservação ambiental está sendo traçado em Curitiba, durante o Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação, que reúne mais de 500 participantes de todo o País e convidados estrangeiros. As pressões contra essas áreas estão aumentando a nível diabólico, quase incontrolável, e as atuais gerações serão as últimas a ver grandes áreas naturais preservadas, disse ontem Marc Dourojeanni, peruano responsável pelos programas ambientais do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) no Brasil.
Segundo Dourojeanni, uma das maiores ameaças à preservação ambiental na América Latina vêm da retomada, nesta década, dos investimentos em obras de infra-estrutura, praticamente paralisados durante os anos 80. Estão projetadas várias estradas que vão cortar as poucas terras que ainda desfrutam de certa liberdade frente ao impacto humano, disse.
Dourojeanni também destacou que, ao mesmo tempo que o número de áreas protegidas na América Latina aumentou dez vezes nos últimos anos, a qualidade do manejo diminuiu: Criam-se parques, mas eles logo são abandonados por falta de dinheiro para manutenção.
Como exemplo, ele informou que no conjunto da Amazônia o investimento em áreas protegidas é de apenas US$ 0,04 por hectare - dos quais 76% são gastos em prédios e equipamentos, e não em operações e pessoal. No Brasil, disse Dourojeanni, 55% das unidades de conservação federais não têm planos de manejo. Mesmo nas que têm, a realidade é difícil. O Ibama tem mais de 6 mil funcionários, mas só 500 trabalham nas unidades de conservação. Alguns parques são cuidados por dois ou três funcionários, disse Niéde Guidon, da Fundação Museu do Homem Americano.
O alerta sobre a pressão que a ampliação da infra-estrutura tende a provocar sobre áreas silvestres também foi feito pelo americano Kenton Miller, vice-presidente do World Resources Institute. Para Miller, as mudanças no clima e o crescimento populacional (que demanda maior produção de alimentos e ampliação da infra-estrutura) são desafios que a preservação ambiental enfrentará no século 21.
Miller citou um cálculo publicado recentemente na revista Nature para dar a dimensão da importância da preservação do patrimônio natural. Segundo esse cálculo, feito por uma equipe de economistas de vários países, a natureza oferece gratuitamente US$ 33 trilhões por ano.
Entre os ambientalistas brasileiros que participam do congresso, uma das maiores preocupações é com o projeto-de-lei que cria o Sistema Nacional de Unidades de Conservação. Em tramitação desde 1992 no Congresso Nacional, o projeto recebeu um substitutivo do deputado Fernando Gabeira (PV-RJ) que, segundo os ambientalistas, ameaça o futuro das áreas protegidas.
O substitutivo permite, por exemplo, o uso de unidades de conservação para finalidades como reforma agrária. O texto subjuga os interesses nacionais aos locais, que colocam em primeiro lugar o aspecto econômico, em detrimento do ambiental, disse Miguel Milano, coordenador geral do congresso.


