Confrontos armados entre pistoleiros e sem-terra fizeram três mortes ontem no Estado. Em Querência do Norte, um grupo de pistoleiros tentou desocupar a Fazenda São Francisco. No conflito, morreu um sem-terra. O dono da fazenda nega que organizou a desocupação. Em Laranjal (leia texto à esquerda) um acampado e um pistoleiro morreram durante confronto que durou quase o dia todo. Há dois feridos.
O sem-terra Fátimo Caribaldi, 51 anos, morreu ontem de manhã depois de levar um tiro na perna durante ação de jagunços na fazenda São Francisco, em Querência do Norte (113 quilômetros a noroeste de Paranavaí). Segundo versão dos sem-terra que moram no acampamento, cerca de 15 homens encapuzados e armados de escopetas, espingardas calibre 44 e revólveres chegaram na área por volta das 5 horas da manhã. ‘‘Eles entraram pela estrada principal e chegaram atirando e gritando que era a polícia’’, contou o tratorista Edvaldo Rodrigues Filho, 28 anos, que mora no acampamento.
Marcos NegriniDestruiçãoO acampado Ilomar Matos mostra uma porta arrancada de um barraco com um tiro de escopetaEle disse à Folha que os jagunços se tratavam como oficiais da polícia. Para os acampados, todos eram contratados pelo dono da fazenda, Morival Favoretto. ‘‘Os caras chamavam um ao outro por sargento, coronel e tenente, mas eu reconheci o Favoretto e o Ailton Lobato (administrador da fazenda), entre eles’’, afirmou Rodrigues. Ainda de manhã a polícia prendeu Lobato, 43 anos, administrador de uma fazenda vizinha. Segundo o delegado de Querência do Norte Arildo Figueiredo de Almeida, o administrator foi autuado em flagrante por porte ilegal de arma e poderá responder por formação de quadrilha.
Os sem-terra que presenciaram o início da invasão contam que Caribaldi saiu da barraca e tentou correr, como os jagunços ordenavam, mas foi atingido por um tiro pelas costas na coxa esquerda. ‘‘O companheiro morreu de tanto perder sangue’’, afirmou Rodrigues. Segundo ele, todos os acampados que não conseguiram correr foram cercados no meio dos barracos e impedidos de socorrer Caribaldi. O corpo só foi tirado da propriedade pelos familiares, depois que os jagunços deixaram a área. ‘‘O Favoretto chegou e disse que alguém tinha feito uma cagada, aí entraram nas camionetas e num caminhão e foram embora’’, revelou Rodrigues. Os acampados garantem que não reagiram.
Alguns acampados acham que o alvo seria Rodrigues, que mudou o lugar da barraca que ficava na entrada da propriedade na última segunda-feira. A barraca dele era ao lado da de Caribaldi. ‘‘O Ailton (Lobato), já tinha ameaçado ele de morte e foi direto para o barraco da entrada’’, contou Ilomar Matos, 30 anos. Lobato disse ao delegado que não foi o responsável pelo disparo que atingiu Caribaldi. Rodrigues era tratorista da fazenda até a invasão, quando decidiu ficar com os sem-terra. Ontem à tarde os acampados ainda estavam assustados.
O 8º Batalhão de Polícia Militar de Paranavaí enviou reforço para Querência do Norte, mas o clima era calmo. A Polícia Militar e o delegado pretendem reforçar o policiamento hoje para o enterro de Caribaldi, que até o início da noite não tinha horário marcado.
A fazenda São Francisco tem 851 hectares e foi invadida no dia 6 de setembro por cerca de 50 famílias. Ontem, 56 famílias estavam no acampamento. Pelo menos 120 pessoas, a maior parte mulheres e crianças, ficaram na mira dos jagunços durante pouco mais de uma hora. O proprietário plantava soja na área e conseguiu liminar de reintegração de posse. Os sem-terra garantem que a área está sendo negociada com o Incra e já plantaram algodão e milho em parte da propriedade.
O superintendente do Incra no Paraná, Petrus Emile Abi-Abib, disse ontem à Folha que a fazenda foi considerada de média produtividade, sem interesse de desapropriação para fins de reforma agrária. A Folha tentou ainda ouvir os líderes do Movimento dos Trablhadores Sem-Terra (MST), em Querência do Norte, mas nenhum foi localizado na cooperativa mantida pelo movimento na cidade.

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