Conflito fundiário é maior no Norte
PUBLICAÇÃO
domingo, 23 de novembro de 1997
Alexandre Sanches 
Londrina
A morte do ex-posseiro Adenilson da Silva Cruz, 25 anos, o Nego Saruê, que comandou seis invasões seguidas à Gleba do Cedro, na reserva indígena Barão de Antonina, em São Jerônimo da Serra (100 km ao sul de Londrina), chamou a atenção para a questão fundiária em áreas indígenas. Segundo a Fundação Nacional do Índio (Funai), este é o maior conflito agrário no Estado.
Nego Saruê foi morto com três tiros disparados pelo cacique Reginaldo Batarse, 27 anos, domingo passado. A iminência de um confronto armado foi alertada pelos índios. A Polícia Federal tenta cumprir cinco mandados de prisão de ex-posseiros. Nego Saruê era um dos foragidos.
Desde janeiro do ano passado, os índios caingangue estão brigando pelo direito a uma área de aproximadamente 120 alqueires, ocupada por 100 famílias de ex-posseiros. Estas famílias foram retiradas da região em 1985, quando a Funai realizou uma nova demarcação de terras, de 583 hectares. Alguns posseiros que não aceitaram a transferência para a região de Tamarana entraram com ação na Justiça. A portaria que reconhece os limites só foi assinada em 1991 pelo presidente Fernando Collor de Mello.
Os ex-posseiros justificavam as invasões denunciando os índios que arrendavam terras da Gleba do Cedro para fazendeiros criar gado e cavalos. Inconformados com as áreas sem cultivo, se achavam no direito de reivindicar a terra. Segundo a Funai, os arrendamentos ilegais promovidos por alguns membros da comunidade indígena foram suspensos. Alguns índios foram transferidos para outras reservas.
Mas o clima de medo entre as famílias que ficaram na Barão de Antonina continuou. Depois da última expulsão de invasores, quando Nego Saruê ateou fogo a casas e áreas de mata, alguns índios chegaram a pedir transferência para outras áreas, temendo conflitos.
Das aproximadamente 400 pessoas que viviam na Barão de Antonina, pouco mais de 200 permanecem. Até os líderes renunciaram aos cargos e solicitaram transferência.
Os posseiros garantem ter direito à área e que a reserva, na realidade, deveria ser mais próxima da cidade. Questões políticas afastaram os índios da cidade. Como lá havia grandes fazendeiros, foi mais fácil expulsar os pequenos trabalhadores rurais, afirma o ex-posseiro João Rodrigues, 64 anos.
O administrador do escritório da Funai em Londrina, Joventino Domingos Aco, disse que a cidade de São Jerônimo foi erguida em cima das terras dos índios, que em 1859 compreendiam 5.833 hectares. Com a construção da cidade, a reserva foi dividida em duas. Se o governo for recorrer pelas terras perdidas para o branco, pegaria terras que vão de São Jerônimo da Serra até Jataizinho, informou.
Os ex-posseiros reclamam que os índios não plantam dentro da reserva. Do distrito de São João do Pinhal, que faz divisa com a Gleba do Cedro, só há vegetação rasteira e áreas de pastagens. Mas na sede da reserva são plantados milho, feijão e arroz.
É difícil afirmar quem realmente é índio dentro da área de 583 hectares. A convivência de pouco mais de um século com o branco deixou muitos moradores da reserva com apenas 25% de sangue indígena. Há índios parentes de ex-posseiros. Mas isso não significa que o relacionamento entre eles é bom. Há críticas e acusações mútuas que prometem manter o conflito por algum tempo.
A direção da Funai em Brasília foi procurada pela Folha esta semana. A assessoria de imprensa do órgão prometeu contatos, mas até o final da tarde de sexta-feira não havia retornado as ligações.


