Conflito. Ele também serve à educação
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sábado, 14 de março de 2009
Luciano Augusto<br> Reportagem Local 
Paulo Freire, um dos mais respeitados educadores brasileiros, já assinalava que o conflito é ferramenta fundamental no processo de desenvolvimento de uma pessoa. Questionar, lutar, possibilita aprender, conquistar. Mas no ambiente escolar as situações conflitantes ainda são uma incômoda, e perigosa, pedra no sapato dos professores.
Convidada pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) para integrar bancas de avaliação de mestrado em Educação, a pesquisadora da Universidade de Campinas (Unicamp) Telma Vinha também proferiu palestra neste final de semana a pedido do Sindicato das Escolas Particulares do Norte do Paraná (Sinepe-NPR), enfocando a urgente necessidade de reflexão sobre violência e conflitos no cotidiano escolar. Trouxe consigo dados que mostram que essas questões interferem, e muito, no aprendizado. Pesquisa feita em 2005 em escolas públicas e particulares apontou que quase a metade dos professores ouvidos dedicavam até 40% do seu dia escolar aos problemas de indisciplina e conflito entre alunos.
Um outro trabalho, realizado em 2000 pelo Sindicato de Especialistas de Educação do Magistério Oficial do Estado de São Paulo (Udemo) em 496 escolas da rede pública estadual, constatou que 84% haviam sofrido algum tipo de violência como desacato, agressões, tráfico de drogas e uso de armas.
Em entrevista à FOLHA, Telma disse que as escolas atacam o conflito de duas maneiras: com soluções rápidas (suspensões) ou usando mecanismos de controle (com regras). Ela ponderou que as faculdades de educação também não preparam o futuro professor para lidar com esse tipo de situação. O resultado é o pior possível, pois, segundo a pesquisadora, tal situação impede a transmissão de valores importantes para os alunos. O professor é muito bem intencionado no discurso, mas não percebe que os mecanismos punitivos de controle levam para uma direção oposta. A forma como a escola age passa uma mensagem contrária ao que ela busca, advertiu.
Conforme Telma, os conflitos são positivos porque dão pistas do que a criança ou o adolescente vê como necessidade de aprendizagem para sua vida futura. Educação para o presente não funciona. Onde há controle, intolerância, não existe educação. De acordo com a pesquisadora, a escola é o espaço onde se aprende a convivência coletiva, entre iguais, diferente do ambiente familiar. Portanto, continuou, a escola tem que assumir sua responsabilidade neste processo.
Para além das críticas, a pesquisadora da Unicamp exaltou que a teoria construtivista (que pensa o conhecimento na perspectiva da criança ou daquele que aprende) define quatro orientações fundamentais que podem contribuir para transformar os conflitos em oportunidades. O primeiro ponto é perceber os conflitos como situações de aprendizagem, ampliando a discussão, debatendo a questão na perspectiva dos envolvidos, as razões de cada um.
Outra recomendação é que o professor controle sua reação: A boa intervenção não precisa ser na hora porque, ao agir com impulsividade, o educador acaba ferindo princípios de justiça, respeito. A solução do conflito deve insidir sobre a causa e não sobre as partes envolvidas. Após solucionado o conflito, os alunos devem discutir, refletir sobre o que aconteceu para que possam colocar seus sentimentos, sem desrespeitos ou agressões.


