Conflito divide índios guarani de Laranjinha
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terça-feira, 06 de dezembro de 2005
Marta Ortega<br>Reportagem Local 
Um conflito interno está fazendo com que os índios da Reserva Laranjinha, em Santa Amélia (63 km ao sul de Cornélio Procópio), se dividam em dois grupos e busquem caminhos diferentes. Na madrugada de ontem, cerca de 40 famílias que querem preservar os hábitos e a cultura guarani ocuparam uma área dentro da própria reserva, de onde foram tirados cerca de 50 anos atrás. Outras famílias devem chegar ao local entre hoje e amanhã. A outra parte do grupo, cerca de 25 famílias, mais integradas aos hábitos dos brancos, permanece na área a 15 quilômetros da reserva. Ontem pela manhã, um grupo liderado pelo cacique Mário Sampaio esteve na sede da Fundação Nacional do Indio (Funai), em Londrina, solicitando apoio para a ocupação e exigindo uma decisão para que eles retomem a posse da terra, ocupada por fazendeiros.
Segundo relatos dos índios, há 50 anos, uma epidemia de febre amarela fez com que as famílias fossem transferidas para a área próxima à reserva, onde viviam até hoje. A reserva foi loteada e vendida a fazendeiros, que também possuem documentos de posse da terra. A briga foi parar na Justiça porque os índios reivindicam seus direitos há mais de dez anos. ''Queremos voltar para nossa terra que é de direito nosso'', afirmou o cacique.
Documentos da Funai, Incra e Ministério da Justiça comprovam a posse de terra para os índios, que reivindicam a reitegração de uma área de 1.280 hectares. No processo estão anexados um levantamento cartorial e uma pesquisa antropológica que descobriu um cemitério indígena na região, o que comprova que os ancestrais das famílias viviam no local.
Segundo o coordenador da Funai em Londrina, José Gonçalves, o processo foi encaminhado ao Ministério da Justiça em maio deste ano. ''Por enquanto a Funai não pode fazer nada. Todos os procedimentos foram feitos e agora temos que aguardar a decisão do Ministério'', relatou.
Os índios reclamam da demora da Justiça e criticam a atuação da Funai, que segundo eles não vem colaborando para a agilização do processo. ''Se não tomássemos uma decisão mais drástica, esse problema nunca seria resolvido'', afirmou o cacique, justificando a ocupação da área. Os índios ocuparam algumas casas no centro da reserva, que estavam vazias. Cerca de 30 crianças estão no local.
Em maio deste ano, os índios fizeram uma manifestação na reserva, pedindo providências. A intenção de ocupação foi informada através de conversas com o cacique e o cordenador da Funai, que orientou os índios a aguardar o resultado da Justiça.
Conflito Segundo o cacique, os problemas internos foram ficando cada vez mais preocupantes. ''Os conflitos surgem porque a aldeia tem regras determinadas pelo cacique e nem todos querem seguir'', afirmou. Por causa disso, dentro da própria aldeia, os índios estavam divididos. Para evitar mais conflitos, o grupo que quer manter as tradições ocupou a fazenda.
O professor Claudinei Ribeiro Alves, responsável para manter a cultura e as tradições da língua guarani na aldeia, informou que o conflito era grande. As desavenças são muitas. Ele conta que a área onde estão as famílias hoje é de 117 hecatares. ''São quase 70 famílias, cerca de 400 pessoas, que estão se aglomerando e discordando de algumas regras da aldeia''. Um documento preparado pelos ocupantes da reserva Laranjinha aponta que eles querem começar uma organização da maneira guarani, preservando a língua e a cultura dos antepassados.


