Paulo Pegoraro
De Cascavel
O vereador Ervandil Simões Pires (PDT) pode ter razão quando proclama publicamente, como na quinta-feira em conturbada sessão da Câmara, que os conflitos políticos e algumas situações inusitadas, ‘‘travancam’’ (atravancam) o desenvolvimento e a integração comunitária da pequena cidade de Vera Cruz do Oeste (56 quilômetros a oeste de Cascavel), com 10,3 mil habitantes. Os conflitos envolvem vereadores e o prefeito Valdeci Teixeira (PDT), o ‘‘Padeiro’’ – sua atividade privada –, alvo de um processo de cassação.
Ervandil Pires é analfabeto e o prefeito seria semi-analfabeto, segundo seus opositores. O vereador, porém, diz que tem ‘‘problema de vista’’, mas não usa óculos. Mesmo assim, ocupa o cargo de 1º secretário da Câmara, função que o obrigaria a ler atas e outros documentos nas sessões. Como não lê, o 2º secretário o substitui, embora regimentalmente isso só pudesse ocorrer no impedimento formal do titular (por doença ou outro motivo de afastamento).
O prefeito, por sua vez, garante que não é ‘‘nem analfabeto, nem semi-analfabeto’’ e relata que tem ‘‘o 1º e até o 2º grau’’. Mas reconhece que em alguns casos pode ter dificuldades para entender documentos ‘‘mais complicados’’ e, por isso, se cercou ‘‘de gente competente e de confiança’’. Os adversários o acusam de ter empregado grande número de familiares e parentes, na prefeitura. Na quinta-feira, a Câmara deveria votar a cassação do prefeito, mas a sessão foi encerrada sem a votação, por causa de tumultos.
O presidente da comissão processante é o vereador Francisco Flávio Vitorino (PFL). Ele seria um dos que ‘‘travancam’’ a vida comunitária e o desenvolvimento, segundo Ervandil Simões – que não faz referência nominal a Vitorino. Populares adeptos de Padeiro e assessores do prefeito se referem ao vereador apenas como ‘‘Chico do Cheque’’, porque ele é acusado de ter endossado um cheque nominal à prefeitura e o depositado na conta de sua sogra. O endosso é negado por Vitorino.
No dia da sessão em que seria votada a cassação, centenas de populares ocuparam a Câmara e área externa, xingando vereadores de oposição ao prefeito e impedindo os trabalhos. As pessoas recebiam refrigerantes distribuídos por uma mulher. ‘‘Não é pago pela prefeitura não, é brinde do Padeiro’’, dizia a mulher. Ao lado, havia crianças com tambores e cornetas de uma escola. Um carro de som, pelo qual populares criticavam vereadores, tinha a fiação elétrica ligada em tomada de uma sala da prefeitura.
Um assessor do prefeito garantia, porém, que o som não era ‘‘coisa do prefeito’’. A repórteres que chegavam – em quantidade nunca antes vista na cidade – para cobrir a sessão da Câmara, o assessor informava que os ‘‘orientaria’’ para a cobertura jornalística. Dentro da Câmara, pessoas ligadas à presidência e ao prefeito confidenciavam a jornalistas que, a qualquer momento, a Justiça deveria conceder liminar a mandado de segurança movido por ‘‘Padeiro’’, interrompendo o processo de cassação.
No entanto, se a liminar não chegasse logo e a sessão se encaminhasse para desfecho desfavorável, o prefeito, que estava presente, seria ‘‘acometido’’ de mal súbito, ficando ‘‘impedido’’ de se defender, o que levaria ao fim da sessão. Tudo se confirmou. ‘‘Padeiro’’ pediu para se retirar ‘‘por alguns momentos’’. Pouco depois, os vereadores eram comunicados de que ele havia sido subitamente acometido de ‘‘forte abalo emocional’’ e estava ‘‘hospitalizado’’. A liminar acabou chegando pouco depois do encerramento da sessão.Prefeito conhecido no município como Padeiro tem entre os principais inimigos o vereador que a população chama de Chico do Cheque
Fotos Edson MazzettoMANIFESTAÇÃO PÚBLICAFaixa colocada nas proximidades da Câmara de Vereadores: apoio ao prefeito Valdeci Teixeira (na foto abaixo, à esquerda) e protesto contra o vereador oposicionista Francisco Flávio Vitorino (na foto abaixo, à direita)Ata da sessão é lida pelo 2º secretário da Câmara (à esquerda). Ervandil Simões Pires (à direita), o 1º secretário, alega problema na visão mas não usa óculos

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