Conferência defende política de cotas
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domingo, 18 de novembro de 2001
Maranúbia Barbosa<Br>De Londrina 
Os negros compõem cerca de 45% da população brasileira, mas apenas 2% frequentam as universidades. Estabelecer uma política de cotas destinadas aos negros nas instituições de ensino superior foi uma das propostas defendidas ontem durante a 1 Conferência Municipal dos Afro-Descendentes de Londrina. O encontro, que começou na sexta-feira e terminou ontem, reuniu negros e descendentes em torno de discussões que enfocaram os desafios para superar os preconceitos na educação e trabalho. Um documento com as propostas votadas será redigido e encaminhado ao poder público municipal e estadual.
Segundo a enfermeira Cíntia Novaes, membro do Conselho Municipal da Comunidade Negra, a dificuldade de inserção no meio universitário reflete os séculos de escravidão. Ela afirma que não houve um preparo e nem foram dadas condições para que os ex-escravos pudessem começar a vida com dignidade. ''Foram jogados às margens da sociedade para se auto-extinguirem''. A resistência da raça, principalmente mediante às condições adversas impostas pelo trabalho escravo, provou o contrário, diz Cíntia. Os negros, além de terem composto juntamente com os índios e brancos a população brasileira, ainda trouxeram uma cultura rica e diversificada, presente na música, culinária, língua e religião.
De acordo com Cíntia, a meta dos conferencistas é assegurar um número de cotas nas instituições públicas paranaenses, especialmente na Universidade Estadual de Londrina (UEL), assim como já é feito na Universidade de Brasília (UnB). A população paranaense, informa, tem cerca de 27% de negros.
Outra proposta estabelecida na Conferência foi a presença de negros na Secretaria Estadual de Educação e no Ministério da Educação (MEC). O objetivo, explica Cíntia, é reverter a apresentação da raça negra nos livros didáticos. O preconceiro é explícito em muitos casos e reforça estereótipos. A falta de auto-estima, afirma, deriva do racismo e da ausência de conhecimento acerca da própria raça. ''Muitos não se assumem como negros'', constata ela. Cíntia relata que existe uma lei estadual proibindo o empregador a exigir ''boa aparência'' de candidatos a vagas de trabalho. O termo, salienta, ''é subjetivo e inclui tudo, menos ser negro.''
Para o professor de língua portuguesa e literatura, Luiz Carlos Paixão, que faz parte da diretoria estadual da APP-Sindicato, a presença do negro na história do País é apresentada de forma superficial. Segundo ele, é preciso reconhecer a raça negra na composição étnica do povo brasileiro e criar políticas públicas que garantam um lugar digno na sociedade é objetivo dos afro-descendentes.
O racismo, na opinião do advogado Tito Valle, é evidenciado quando o negro entra em algum tipo de disputa de espaço com o branco. ''É aí que se verbaliza o preconceito.'' Ele diz que as injustiças cometidas por séculos de escravidão devem ser reparadas com políticas públicas de integração. A força moral, física e intelectual dos negros, para Valle, foi a razão da resistência deles até hoje. ''Eram criados como animais e foram libertados como animais'', mas formam o povo brasileiro, diz Valle. O Brasil, frisa, ''é o maior país negro do mundo''.


