Um dos resíduos resultantes da produção de leite na Cooperativa Central Agroindustrial (Confepar) tem sido despejado em uma propriedade rural do distrito de Warta (Zona Norte de Londrina). A Confepar e a empresa Ajato, responsável pelo transporte do resíduo, garantem tratar-se de material totalmente orgânico usado como adubo para o pasto. Ao questioná-las sobre um despejo testemunhado pela FOLHA na semana passada, contudo, houve contradições. Um fiscal do Instituto Ambiental do Paraná (IAP) irritou-se com os questionamentos da reportagem.
Este jornal decidiu apurar o fato após receber denúncia feita por um ex-funcionário da cooperativa, que pediu para não ser identificado, de que a indústria não fazia a destinação adequada de produtos impróprios para consumo e resíduos da produção de leite. Segundo o denunciante, o material - incluindo resíduos gordurosos - ''era despejado diariamente em estradas e propriedades rurais, constituindo um problema ambiental''. Ainda conforme o ex-funcionário, caminhões da empresa contratada para o transporte saíam da cooperativa carregados com o material várias vezes por dia.
A FOLHA escolheu um dia aleatório para confirmar a informação. Na quarta-feira da semana passada, às 17 horas, registrou a saída de um caminhão da Ajato da cooperativa e o seguiu até uma fazenda na Warta. Lá, três funcionários estacionaram junto a uma pastagem, abriram a portinhola do tanque de transporte e despejaram milhares de litros de um líquido viscoso de cor marrom num único ponto.
De acordo com o gerente industrial da Confepar, Algacir Fernando Bortoti, o material é apenas um dos resíduos gerados na produção da indústria de laticínios. Ele explicou que os efluentes passam por um processo de flotação, em que a gordura é isolada. O material restante vai para uma estação em que o líquido que pode ser tratado é preparado para retornar ao meio ambiente, enquanto o lodo que sobra vai para um leito de secagem. É esse lodo, disse Bortoti, que é reaproveitado como adubo.
O gerente afirmou que a única fazenda que recebe o material é a da Warta, e com autorização do IAP. Ele estranhou, contudo, o fato de ter havido um despejo do líquido na semana passada. Isso porque, segundo ele, nos últimos meses o lodo só tem saído da indústria na forma sólida, pós-secagem. ''Pode ter sido por causa da chuva, daí o material não seca. Vamos averiguar'', disse.
O gerente da Ajato, Renerio Moura, também sustentou, a princípio, que a empresa não fizera nenhum despejo nos últimos 30 dias. Ao receber a confirmação de que a reportagem fotografou um caminhão com logotipo da firma, declarou que, coincidentemente, aquele fora o único despejo feito no mês inteiro. ''De qualquer forma, é um substrato orgânico bom para uso em pastagens e o próprio filho do dono da fazenda, que é agrônomo, indica os locais onde deve ser aplicado'', atestou. Os proprietários da área não foram localizados.
Segundo a engenheira agrônoma Christina da Silva Wanderley, que presta consultoria para chácaras e sítios na região de Londrina, o procedimento testemunhado pela FOLHA - despejo de toda a carga num único lugar - não se encaixa nos parâmetros de adubação. ''O adubo líquido, para ser eficiente, tem que ser espalhado numa área homogênea com auxílio de um pulverizador costal ou de barra. Senão, você tem uma concentração muito grande num ponto só e a tendência é aquilo descer para o lençol freático, podendo contaminar rios'', explicou.
O representante da Confepar concordou que o procedimento adequado seria espalhar o adubo. ''Não pode jogar tudo num lugar só e não é essa a forma como o serviço tem sido feito. Não é a regra'', asseverou.

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