Valmir Denardin
De Foz do Iguaçu
Donos de hotéis de Foz do Iguaçu ouvidos pela Folha condenam o que consideram um privilégio dado pelo governo federal ao grupo Varig e defendem o fechamento do Hotel Tropical das Cataratas, que funciona há 42 anos em um prédio da União construído em frente ao conjunto de 275 saltos, dentro do Parque Nacional do Iguaçu. Esses hoteleiros querem que o prédio abrigue uma atração pública, que seria um atrativo a mais aos turistas.
A discussão foi motivada pela proposta de desmembramento do terreno e do prédio ocupados pelo hotel do restante da área do parque. A existência desse estudo, que vem sendo feito desde outubro do ano passado pela Secretaria de Patrimônio da União (SPU), foi revelada com exclusividade pela Folha. Caso o desmembramento se concretize, o prédio poderá ser vendido ou ocupado sem a necessidade de seguir as regras da Lei de Licitações, obrigatória para a exploração privada de bens públicos.
O hoteleiro Jamil Nakad se diz ‘‘totalmente contra’’ a proposta de desmembramento. ‘‘Aquilo é fruto do sacrifício de uma população inteira e não pode ser entregue a uma empresa privada’’, afirma o empresário, que é juiz aposentado, foi candidato a governador do Paraná em 1998, pelo Prona, e vai disputar a prefeitura de Curitiba este ano, pelo PRTB. Sócio do Hotel Internacional – um requintado cinco estrelas com 214 apartamentos no centro de Foz do Iguaçu, reaberto no ano passado –, Nakad defende a utilização do prédio para a instalação de um museu em homenagem a Santos Dumont.
Considerado o ‘‘pai da aviação’’, o brasileiro Alberto Santos Dumont (1873-1932) foi o principal responsável pela criação do Parque Nacional do Iguaçu. Depois de conhecer as Cataratas, no início da década de 30, ele pediu ao então presidente Getúlio Vargas a transformação da mata em torno das quedas em parque nacional. A área era propriedade de um madeireiro argentino. Getúlio atendeu o pedido e, em 1939, criou o parque nacional, com 185 mil hectares.
‘‘A criação do museu atrairia mais visitantes às Cataratas e seria uma forma de homenagear um grande brasileiro’’, defende Nakad. Metade dos 772,3 mil turistas que visitaram as Cataratas no ano passado é estrangeira. Pela proposta de Nakad, o museu seria administrado por uma organização não-governamental (ONG). Parte dos 200 apartamentos hoje ocupados pelo hotel seriam transformados em alojamento para pesquisadores.
O hoteleiro Névio Rafagnin, 50 anos, sócio do Hotel Rafain Palace (quatro estrelas) defende a utilização do prédio para a instalação de uma escola de hotelaria ou de uma ‘‘universidade das flores’’ – com cursos sobre o cultivo e exposições permanentes. Para Rafagnin, a existência de um hotel dentro do parque é prejudicial a todo o restante do complexo hoteleiro de Foz, com 220 estabelecimentos, que somam cerca de 23 mil leitos.
O presidente do sindicato que reúne os hoteleiros de Foz do Iguaçu, Carlos Tavares, não quis comentar o assunto. A Folha apurou que, entre os associados da entidade, as opiniões se dividem: metade defende a permanência do hotel da Rede Tropical e a outra metade quer a sua saída, por considerar que a empresa é privilegiada.
Antonio Latorre, diretor comercial da Rede Tropical, diz que seu contrato em vigor (que expira em 2004) é ‘‘totalmente legal’’. Segundo ele, a Varig beneficia a cidade porque divulga as Cataratas em todos os seus escritórios no exterior, o que atrai turistas estrangeiros. Ele afirmou também que o hotel ‘‘é um dos maiores contribuintes de impostos municipais’’.

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