O ódio que até o último final de semana era combustível para a guerra travada entre gangues rivais da Zona Oeste de Londrina foi substituído ontem por um fio de esperança, que chegou depois do acordo firmado no último sábado entre líderes dessas facções que estão presos na Casa de Custódia de Londrina (CCL). Os grupos não depuseram as armas, mas teriam chegado à conclusão de que a paz era necessária para acabar com as acusações, muitas vezes sem provas, feitas de parte a parte. Com isso, moradores dos bairros que até dois dias atrás sofriam as consequências do conflito, viveram um dia de tranquilidade e aproveitaram para visitar amigos e conhecidos nessas comunidades que, antes da trégua, não podiam nem pronunciar o nome em público.
Uma fonte da Folha, que pediu sigilo, informou que o acordo de paz foi formatado numa reunião realizada no sábado entre os presos pertencentes a gangues rivais da CCL. ''Eles resolveram fazer um pacto tentando diminuir a violência entre os moradores para que mais inocentes não fossem mortos nem presos injustamente'', revelou.
No início da tarde, a Folha acompanhou uma visita do presidente e vice do Conselho Comunitário de Segurança da Zona Oeste, Rubens Vieira e Eloir Rodrigues. Eles disseram esperar que o acordo seja para valer mas que ainda é cedo para comemorar. ''É uma solução paliativa, momentânea, que não ataca o centro do problema. Mas temos que pelo menos acreditar, mesmo se percebermos mais à frente que erramos'', observou Vieira. O risco, destacou, é que o acordo fortaleça ainda mais as gangues.
Na Rua Pantanal, a reportagem testemunhou uma cena antes inimaginável. Depois de cinco anos marcado pela intolerância, um grupo de mulheres e crianças do Jardim Nossa Senhora da Paz pôde entrar na Pantanal para visitar conhecidas. ''Com a graça de Deus, eu acredito que essa paz vai durar'', disse uma das visitantes. ''Muitos não estão acreditando, mas a gente sempre pedia para que essa guerra acabasse, principalmente por causa das nossas crianças'', afirmou uma moradora da Pantanal. ''Agora, é hora de todo mundo viver em paz por aqui'', completou outra mulher que mora naquela rua, que corria o risco de ser destruída por conta de um projeto de lei que tramitava na Câmara e que foi retirado de pauta.
No Jardim Nossa Senhora da Paz, a sensação era a mesma. Olhando a criançada brincar tranquilamente pelas ruas, uma moradora disse esperar que ''essa paz seja para sempre''. ''Chega de sangue e gente inocente morrendo. Agora, vamos poder sair de casa sem medo para ir ao supermercado, levar os filhos para escola ou ir num posto de saúde'', comemorou uma jovem. No Jardim Leste-Oeste, onde havia um grupo aliado da gangue da Pantanal, o dia ontem também transcorreu sem problemas. Só mesmo o barulho dos foguetes soltados em comemoração pela paz interrompiam o silêncio em alguns momentos.
Os moradores destes bairros aproveitaram para reclamar dos excessos que supostamente estariam sendo cometidos por policiais militares. Mas o comandante interino do 5º Batalhão, major Altivir Cieslack, avisou que as incursões vão continuar e deverão, inclusive ser intensificadas. Ele garantiu que a PM respeita as pessoas de bem mas que não vai interromper o trabalho de repressão que, segundo ele, vem sendo realizado com êxito naquela região. (Leia mais sobre o assunto na Política)

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