Comunidade se une e dá a 'volta por cima'
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terça-feira, 10 de maio de 2005
Francismar Lemes<br>Reportagem Local 
O girassol plantado por um morador às margens da BR-369 não é testemunha só do movimento do astro que inspirou o nome da flor, mas o de uma comunidade da Zona Oeste de Londrina que já foi conhecida por ''Grilo da Caixa Econômica'', ''Favela da Bratac'' e que sonha em ver morrer o preconceito para nascer a Jardim Nossa Senhora da Paz.
Esse dia não está longe e os moradores já preparam uma placa para colocar na entrada do bairro com o nome ''Nossa Senhora da Paz''. Enquanto isso, eles vão trabalhando semanalmente nas ruas e terrenos baldios, através de mutirões de limpeza. A atividade faz parte do ''Projeto de Mãos Unidas'', desenvolvido desde 1998 pelo Centro de Educação Infantil Irmãs de Betânia, com a colaboração das paróquias Imaculada Conceição (Área Central) e Rainha dos Apóstolos (Avenida Tiradentes).
Em 2003, ano em que a violência no bairro chamou a atenção, com vários homicídios e casas de moradores queimadas supostamente pelo tráfico de drogas, as mãos se uniram ainda mais. ''Discutimos muito o problema com os moradores e, através do projeto, estamos tentando mudar essa realidade'', afirma a diretora do Centro de Educação Infantil Irmãs de Betânia, Dalva Regina Taniguchi, que no mutirão de ontem coordenava o trabalho da comunidade.
As primeiras 400 árvores plantadas pelo projeto já estão grandes e, como os girassóis do aposentado Gregório Lemes dos Santos, 70 anos, acompanham as transformações do bairro. Santos mora na vila desde que era conhecida como grilo. Além dos girassóis, planta feijão e mandioca no terreno às margens da rodovia, onde antes moradores de bairros da região costumavam fazer um depósito de lixo e de animais mortos.
''Não temos dimensão do número de pessoas que participam dos vários projetos na comunidade'', ressalta Regina. Uma dessas pessoas é Marco Antônio de Souza, 31 anos. Deficiente físico, ele vê brotar das flores do jardim da creche uma nova oportunidade de vida. ''Comecei a andar com nove anos de idade e nunca pude trabalhar. Me deram esse serviço. Estou ajudando a creche e me tornando mais feliz'', disse o rapaz.
O arrastão da limpeza também ''pegou'' a dona de casa Maria de Souza, 55 anos, que há 40 anos mora no bairro. ''Vim para cá quando tinha só quatro casas. Aqui criei os meus sete filhos e estou achando ótimo esse trabalho'', disse a mulher, garantindo que os moradores limpam e carregam os caminhões da prefeitura com o lixo.
A vizinha, a dona de casa Lindalva da Silva, 52 anos, agradece a Deus a oportunidade. ''Além desse mutirão muitas pessoas oraram para a paz voltar para o bairro. Agora as coisas estão bem mudadas. Muitas pessoas foram contaminadas pela dengue por causa do lixo. O bairro ainda é discriminado. As pessoas precisam entrar aqui e ver que tem muita gente boa e trabalhadora morando aqui'', destaca Lindalva.
Mensalmente, cada participante do projeto recebe uma cesta básica. Segundo a diretora da creche, os participantes são desempregados e o grupo vai mudando conforme a necessidade. ''Se a pessoa consegue emprego, sai do projeto e dá vaga para outra pessoa'', explica.
Para mudar ainda mais a comunidade, os moradores pedem a doação de latões e sacos de lixo, carrinhos para transportar entulhos e luvas. Também necessitam de materiais de contrução para a obra da nova creche e de um centro social, onde hoje funciona a creche.
O local já abrigou uma escola, que encerrou as atividades no auge da violência e que, agora, já tem até um jardim e 82 crianças matriculadas.
SERVIÇO - Quem quizer colaborar pode ligar para o Centro de Educação Infantil Irmãs de Betânia, no telefone (43) 3338-5686


