Curitiba - O domingo de sol de pelo menos 120 moradores do bairro Caximba e entorno não foi aproveitado na praia nem nos inúmeros parques de Curitiba. Preocupados com os projetos de tratamento de lixo na região, a comunidade se reuniu ontem na Paróquia de Campo de Santana para discutir o destino dos resíduos gerados na Capital e municípios da região metropolitana no 2º Seminário ''O Desafio do Lixo''.
Entre as reivindicações dos moradores do bairro está a realização de um estudo detalhado do impacto do atual aterro na saúde das 2,8 mil pessoas que moram na região. ''Nunca foi feita nenhuma pesquisa detalhada sobre o assunto'', diz Fernanda Ribeiro, que é técnica em Meio Ambiente e moradora da Caximba há 23 anos.
Fernanda é parte de um grupo de moradores que está realizando, por conta própria, um levantamento sobre o assunto. ''Já visitamos 43 casas (pouco menos de 10% das casas do bairro) e detectamos muitos casos de problemas renais, respiratórios, de pele e abortos'', enumera. Os resultados do levantamento foi apresentado à população durante o seminário.
Para Fernanda, o problema mais sério encontrado até agora é o registro de inúmeros casos de aborto. ''Foram 26 abortos em 43 casas. É anormal. Em uma das famílias que visitamos já são três casos de aborto entre as mulheres da família, todos por problemas no desenvolvimento cerebral do feto'', aponta.
Segundo ela, o objetivo da pesquisa não é obter resultados definitivos. ''O que queremos é instigar o poder público a analisar a saúde da população da Caximba'', diz. ''Quem mora perto do aterro está sujeito aos gases liberados pelo lixo, a contamização do solo e outros fatores ambientais. Só se pode dizer que não há impacto se houver, de fato, um estudo sério e amplo sobre o assunto'', defende.
Para Fátima Regina Feitosa, da organização Defensoria Social, que reivindica o fechamento do aterro, o impacto social e ambiental do lixo não pode subestimado. Segundo ela, os moradores do entorno de áreas de aterro como o da Caximba sofrem com o estresse da situação e desenvolvem até mesmo doenças mentais. ''São pessoas que, pela indefinição da situação, perdem a vontade de cuidar da casa, de investir no bem estar familiar'', diz.
Para o padre José Antônio da Cunha, um dos organizadores do seminário, a comunidade da Caximba não é contra a proposta da prefeitura de instalar na cidade um usina de tratamento do lixo. ''Mas por que tem que ser na Caximba? Se é um projeto limpo e seguro, porque não procurar outras áreas ao invés de estigmatizar aqui como bairro do lixão?''
Padre Cunha acredita que a implantação da usina ao lado do aterro vai prejudicar o desenvolvimento social e econômico da região. ''Quem é que vai querer comprar o tijolo que é produzido nas olarias que ficarão ao lado da usina?'', questiona. ''Há 20 anos a Caximba recebe o ônus de sediar o aterro. A população daqui tem direito de dizer não à cidade agora'', defende.
A reportagem da FOLHA procurou a assessoria de Comunicação da Prefeitura de Curitiba ontem para comentar o assunto, mas não obteve sucesso.

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