Lúcio Flávio Moura
De São Jerônimo da Serra
Índios de duas reservas de São Jerônimo da Serra (72 km ao sul de Cornélio Procópio), um dos municípios mais pobres do Estado, estão completando duas décadas de controle da presença de brancos nas famílias das aldeias. Mas os traços da miscigenação ainda são a principal característica da população. Segundo estimativas da Funai, 50% dos habitantes das reservas possuem sangue caboclo.
A orientação dos últimos caciques é de que quando um índio (ou uma índia) se casa com alguém de fora da aldeia ele deve se mudar da comunidade. ‘‘É única forma de não deixar nosso povo acabar’’, explica o guarani Nelson Vargas, cacique que comanda também os caingangues da reserva.
Na reserva de São Jerônimo, a menos de dois quilômetros do centro da cidade, o principal problema é o intercâmbio constante, que como maior consequencia trouxe o problema do alcoolismo à aldeia. O cacique ressalta que é difícil saber quantos índios são alcóolatras.
Ele estima que 10% dos homens sofrem com a doença. ‘‘Os casos mais graves são encaminhados a locais de recuperação, mas a reincidência é muito grande’’, lamenta o cacique, que contabiliza três mortos decorrentes de alcoolismo nos últimos anos.
Para Gilmar Ferreira da Silva, 41 anos, chefe do posto da Funai na aldeia, a explicação é o contato direto com a cultura branca que deprime o índio. ‘‘Eles começam a raciocinar como as pessoas da cidade, mas não tem um projeto de vida nem aqui dentro, nem lá fora. Eles passam a viver de maneira inconsequente, onde vale somente as ações daquele dia’’, explica.
Em todos os bares da cidade, avisos afixados nas paredes lembram a proibição da venda de bebidas aos índios. ‘‘Nos últimos anos, com um trabalho da própria Funai, a gente vem observando um avanço na conscientização dos donos dos bares, mas é uma coisa muito difícil de controlar porque eles usam outras pessoas para adquirirem a cachaça’’, admite Silva.
Na reserva Barão de Antonina, a 18 quilômetros da cidade, habitada basicamente por caingangues, o problema do alcoolismo é menor porque o acesso à bebida é mais difícil e as doutrinas religiosas, principalmente a evangélica (Assembléia de Deus), teve um aumento de influência assustadora nos últimos anos. Ainda assim, a Folha flagrou alguns índios – no intervalo dos trabalhos de roçagem da margem da estrada que dá acesso a aldeia – consumindo cachaça no meio da tarde, escondidos em uma casa da aldeia.
Para evitar o alcoolismo e a miscigenação, as duas comunidades estão investindo na autosuficiência econômica, combate à pobreza, na educação das crianças e na ocupação dos adultos.
Enquanto na Barão de Antonina, cuja aldeia abriga moradias em péssimas condições (cabanas com coberturas de palha), o cacique tenta recursos para a construção de pelo menos 30 casas, na São Jerônimo, até o final do ano, 98% das casas estarão abastecida com água tratada. A conquista finaliza um bem sucedido programa de proteção de nascentes, que começou em 1992. O trabalho da Pastoral da Criança local diminuiu os números da subnutrição com a doação de vacas leiteiras e a distribuição da multimistura.
Duas represas povoadas com tilápia e piauçu, construídas a cinco meses como reserva proteica da tribo, também está ajudando no combate a desnutrição. O projeto elaborado por técnicos da Funai aguarda a liberação de verbas para sua ampliação. Com a instalação da rede de abastecimento de água, a meta do cacique e do chefe de posto é a construção de mais quatro tanques de produção e de mais quatro represas para a pesca.
Ao mesmo tempo está sendo incentivada a caça na aldeia, que tem 45% de sua área com mata nativa. São abatidos porcos-do-mato, cateto e veado, que suprem parte da ausência de proteína animal na dieta das famílias, que se alimentam basicamente de arroz, feijão, milho e mandioca.
Na outra reserva do município, a caça está desaparecendo, já que a última geração começou a se dedicar mais à agricultura. A estratégia de dar mais atenção à atividade agrícola foi motivada por dois fenômenos que deram visibilidade a questão fundiária da reserva no início desta década: acusações de que os líderes se favoreceram com o arrendamento de parte do território, prática ilegal em terras da União, e a ação de posseiros que invadiram a área periférica da reserva.
Embora os dois assuntos ainda sejam tabus, tratados laconicamente pelos moradores da aldeia, aparentemente eles não existem mais, conforme garantiu à Folha o cacique Reginaldo Salles Batarse, 29 anos. ‘‘Nós mesmos estamos plantando, foi bom que a gente acordou com estes problemas’’, interpreta.
‘‘É muito difícil ter carne no almoço. Às vezes tem no domingo, quando meu marido vai caçar. Nos outros dia ele fica na roça o tempo inteiro’’, conta Geni Ferreira Frederico, 28 anos, que está grávida, mas só faz uma reforçadíssima refeição por dia, um farto prato de arroz com feijão acompanhado de uma jarra de leite, dieta consumida por quase toda a aldeia.
Na escola da comunidade, as crianças estão se preparando para cantar o Hino Nacional em caingangue. ‘‘Para eles, ainda é muito difícil porque em casa eles conversam em português’’, lamenta o professor Arthur Amaral, 40 anos. Ele também aprendeu a língua de sua tribo na escola e hoje tenta vencer o obstáculo que também o prejudicou: a ausência dos pais no ensino do caingangue.
Hoje ele percorre as casas da aldeia complementando o dia-a-dia das aulas, muitas vezes prejudicada pelas faltas constantes – ‘‘Quando não tem merenda a escola fica vazia, e isto, infelizmente, é muito comum’’ –, explicando aos pais a importância de se conversar em caingangue em casa.Traços da mistura de brancos nas famílias indígenas são marcantes nas reservas São Jerônimo e Barão de Antonina, em São Jerônimo da Serra
Josoé de CarvalhoMISCIGENAÇÃOParte das crianças das duas reservas de São Jerônimo da Serra: 50% da população têm sangue cabocloJosoé de CarvalhoMarlene do Carmo Veloso: ‘‘Minha origem não me limitava em nada’’Josoé de CarvalhoGeni Ferreira Frederico: ‘‘É muito difícil ter carne no almoço’’Josoé de CarvalhoProfessor Arthur Amaral, da reserva Barão de Antonina: ‘‘Quando não tem merenda a escola fica vazia, e isto, infelizmente, é muito comum’’Josoé de CarvalhoCacique Reginaldo Salles Batarse, da reserva Barão de Antonina: doutrinas religiosas, principalmente a evangélica, diminuem problemas com o alcoolismoJosoé de CarvalhoCacique Nelson Vargas, da reserva São Jerônimo, sobre a bebida: ‘‘Os casos mais graves são encaminhados a locais de recuperação, mas a reincidência é muito grande’’Josoé de CarvalhoNilza Fernandes Batista: novas gerações lutam contra um sentimento baixa estima, ao mesmo tempo em que querem, cada vez mais, exercer atividades intelectuais

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