O final de uma rua sem asfalto, no Distrito do Espírito Santo (Zona Sul), guarda uma agradável surpresa. Ali, na Escola Municipal Luis Marques Castelo, construída há mais de 50 anos, detalhes como canteiros bem cuidados, vasos floridos e pintura impecável são um sinal de que a comunidade está em sintonia com a vida escolar dos seus filhos. Mais do que isso: é um sinal de que eles respeitam cada metro quadrado do espaço onde o mistério das letras se desfaz.
Os 230 alunos da escola terão nos próximos dias um motivo a mais de satisfação. Eles vão ganhar um espaço para fazer o que mais gostam e precisam - brincar. Serão inaugurados a brinquedoteca e o primeiro parquinho da instituição, construídos com recursos obtidos por meio da venda de produtos doados pela Receita Federal. A ideia de recorrer à comercialização de itens apreendidos foi de uma professora, e a participação da comunidade garantiu a concretização do sonho.
''Temos pais bem participativos, que valorizam a escola. Foram eles, por exemplo, que fizeram o jardim ali da frente'', diz o diretor Rogério Gil Kosteski, referindo-se às folhagens que margeiam o muro e o florido canteiro que recebe alunos e visitantes. O novo espaço para brincadeiras custou R$ 35 mil e foi projetado com a orientação de órgãos da prefeitura. A sala onde já funcionou a biblioteca da escola hoje guarda verdadeiros tesouros para crianças acostumadas a viver com recursos limitados. Brinquedos pedagógicos dividem espaço com carrinhos de controle remoto, skates, bonecas, aparelho de DVD, pufes coloridos e um tapetão que convida para as brincadeiras.
''Nossa primeira brinquedoteca foi montada em uma casa de madeira nos fundos da escola, com sucata e brinquedos usados, já com a preocupação de oferecer um espaço em que os alunos pudessem simplesmente brincar. Nossa preocupação sempre foi contrapor a tendência existente hoje em dia de as crianças deixarem de ser crianças muito cedo'', informa o diretor. No ano que vem a escola vai oferecer ensino integral e a brinquedoteca vai abrigar também oficinas de atividades complementares.
Foram as 'brincadeiras' violentas que os alunos passaram a trazer para a escola que fizeram a psicopedagoga e supervisora escolar Deibe Barbosa perceber que as crianças precisavam de um estímulo mais saudável. ''Elas estavam ociosas, brincando pouco e brigando muito, se machucando o tempo todo. E como sabemos da importância do brincar para estruturar o mundo interno da criança, tivemos a ideia de montar a brinquedoteca.'' As melhorias no comportamento dos alunos, segundo a supervisora, foram imediatas.
Também na Zona Sul, mas distante vários quilômetros, um projeto implantado por um velho conhecido do Colégio Estadual Albino Feijó Sanches, no Parque das Indústrias, está mudando a realidade de crianças e jovens. Genivaldo José de Lima é treinador de futebol e encontrou nas oficinas de esportes uma forma de retribuir a atenção recebida durante a adolescência - quando ele foi aluno do colégio - e evitar que tantos meninos e meninas sejam atraídos para o quase sempre sem volta mundo do crime. Este é um perigo que Genivaldo conhece bem: ''Eu fui um aluno com muitos problemas, me envolvi até com drogas. Faço isso para que eles não passem pelo que eu passei'', diz o treinador, hoje pai de uma aluna do colégio.
Há seis anos, Lima dedica, voluntariamente, todos os finais de tarde às atividades com 135 crianças e adolescentes. As turmas se dividem entre vôlei, futsal e futebol de campo. Entre um treino e outro, ele não abre mão de sentar com todos e conversar. ''A criança precisa de quatro coisas básicas: família, religião, escola e esporte'', ensina.
A adolescente Mayalle Fernanda dos Santos Gomes, de 13 anos, é uma das beneficiadas pela iniciativa do ex-aluno do colégio. Participante do projeto há 2,5 anos, ela sonha em ser uma grande jogadora de vôlei, mas sabe que, mesmo que não consiga viver do esporte, já está no lucro: ''Sei que vou ser uma cidadã melhor. Aqui aprendi a ter respeito, limites e a dar valor às amizades''.

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