Márcia HilgembergeResistênciaHidário, Generoso, Neire e Cidália: ‘‘Aqui é muito bom de viver, ninguém perturba a gente, não tem bandido e nem confusão de sem-terra’’. A comunidade negra de Campina dos Morenos, no município de Turvo (54 quilômetros ao norte de Guarapuava) que já teve quase dois mil habitantes, corre o risco de desaparecer ou perder totalmente suas características originais. Apenas 12 famílias, todas parentes, ainda permanecem no local que já foi um quilombo (lugar onde se refugiavam escravos fugidos).
Campina dos Morenos é um local de difícil acesso, sem posto de saúde, sem mercado e poucas pessoas da região ouviram falar nos descendentes de africanos que ainda tentar preservar a comunidade que foi fundada no século passado. Só há escola e igreja. Grande parte dos descendentes morreu e outros foram embora para a cidade.
As poucas pessoas que ainda restam na comunidade só assistem televisão por acaso, quando vão à cidade, raramente elas ouvem rádio, votam em candidatos indicados por conhecidos e pouco sabem do que acontece no mundo, ou mesmo na cidade de Turvo, a mais próxima. Os mais velhos vão para a cidade apenas no dia do pagamento da aposentadoria e aproveitam para fazer compras.
Os sete filhos, todos já adultos, de Hidário Luiz Rodrigues, 63 anos, nunca saíram da comunidade. De segunda à sexta-feira eles trabalham na lavoura e nos fins-de-semana ouvem música sertaneja pelo rádio e visitam os vizinhos. Nunca foram em bailes e as únicas festas que conhecem são as festas religiosas que acontecem na igreja da comunidade.
Hidário conta que as atuais famílias da comunidade pouco têm a contar sobre a vida de seus antepassados. ‘‘O povo foi morrendo e outros foram embora. Nós sabemos pouco da história dos antigos moradores daqui. Mas sabemos que a história deles é cheia de sofrimento por causa da escravidão’’, deduz.
Para ele, a vida na comunidade é muito melhor do que na cidade e por isso nunca pensou em ir embora. ‘‘Esperamos que a nossa comunidade nunca se acabe, mas isso vai depender dos nossos netos. Aqui é muito bom de viver, ninguém perturba a gente, não tem bandido e nem confusão de sem-terra. Nós estamos acostumados com essa vida e não temos muita curiosidade de saber o que acontece fora daqui’’, argumenta.
Demonstrando o tempo todo que sabe o que se passa fora da comunidade, Hidário reclama das equipes de reportagem que já estiveram no local. ‘‘Nós temos medo de reportagens porque tememos que haja exploração do nosso lugar, achamos que vai acontecer coisa ruim’’, teme.
A filha de Hidário, Cidália Rodrigues, 22 anos, estudou até a 3ª série do 1º grau na escola da comunidade. Ela ajuda os pais na lavoura e nos serviços domésticos. Diz não ter vontade de saber muitas coisas do ‘‘mundo lá fora’’. ‘‘Eu sou feliz assim. A gente não precisa viver naquela correria da cidade para ser feliz. Eu gosto daqui, sei muito pouco do que acontece longe da nossa comunidade. Mas sei que existe televisão e computador. Só não sei como funciona e para que serve’’.
Ela explica que quando um casal da comunidade namora e resolve viver juntos, eles ‘‘fogem’’. ‘‘O rapaz rouba a moça de noite e leva ela para a casa dele. É assim os casamentos aqui. Ninguém faz casamento como na cidade’’, conta.
A única professora da escola da comunidade, Roselene Rodrigues, 22 anos, também só estudou até a 4ª série do 1º grau. Desconfiada de que a reportagem pudesse prejudicar seu emprego, disse que só falaria com autorização por escrita do prefeito de Turvo. Depois de alguns minutos de conversa, ela já relatava que sonha em um dia sair da comunidade.
‘‘Meu maior sonho é ser professora na cidade e fazer um curso de computação. Aqui não vejo que o futuro possa ser melhor. Por isso, passo os meus dias lendo revistas, jornais velhos e livros que vêm para a escola’’, disse. Roselene tem apenas 10 alunos. Mas ele ressalta que as crianças são esforçadas em aprender e não faltam às aulas.

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