Comunidade científica reage com rigor
A teoria do psicoterapeuta Federico Navarro revoltou os médicos diretamente ligados às vítimas de Aids. É uma afirmação leviana, irresponsável e jamais partiria de um profissional ligado à área de saúde, diz a presidente da Sociedade Paranaense de Infectologia, Maria das Graças da Mota Sasaki. Segundo ela, a tese de que o vírus HIV não existe prejudica toda a campanha de conscientização da população. Chega de estrelismo em cima da Aids. É uma teoria mentirosa, anedótica, sem respaldo científico e nociva à sociedade, diz.
Como outros epidemiologistas, Maria das Graças diz que a existência do vírus HIV é confirmada cientificamente desde a década de 70 e que a epidemia provoca hoje alta letalidade no mundo. Ela explica que os vírus ataca as células macrófagos e monócitos, cuja função é eliminar os micoorganismos estranhos. Ataca ainda os linfócitos, responsáveis pela imunidade do organismo. Sendo hospedeiro, o HIV se multiplica às custas das células e os vírus passam a atacar outras células. O HIV faz uma bagunça no sistema imunológico, diz. Quando a presença de linfócitos cai abaixo de 200 células por milímetro cúbico, os sintomas da doença começam a surgir. O medicamento AZT atua sobre o vírus para que não se multiplique, permitindo que o organismo equilibre a imunidade.
Temos de nos curvar às evidências da Ciência, afirma, por sua vez, Mírian T. Matsuno, diretora clínica do Hospital Osvaldo Cruz, de Curitiba, o principal em atendimento a doentes com Aids. Cerca de 800 pacientes fazem uso do coquetel anti-HIV na cidade. Segundo ela, o alastramento e a gravidade da doença podem ser medidos pelo aumento do número de vítimas entre mulheres, crianças e heterossexuais.
O professor de Epidemiologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Moacir Pires Ramos afirma que, se fosse possível negar o vírus HIV, seria necessário negar também todos os outros vírus pesquisados e confirmados pela comunidade científica. A doença não depende do psiquismo. É o mesmo que dizer que o frio é psicológico e colocar alguém dentro de um freezer. Há pessoas mais sensíveis ao frio e outras menos, mas o frio existe, como o vírus da Aids existe, afirma Ramos.
Ele diz ser favorável ao princípio da incerteza, pois gera questionamento, mas é contrário a ele quando traz prejuízos e comete um crime contra a sociedade. É o caso de quem diz que o HIV não existe. (E.E.S.)





