Tamarana - "O que sobrou foi a gente mesmo." O desabafo é da trabalhadora rural Estela Cristina Carvalho. Moradora de uma comunidade instalada à beira da PR-095, ao lado da ponte do Rio Apucaraninha, em Tamarana (Região Metropolitana de Londrina), ela perdeu praticamente tudo depois do temporal da última segunda-feira. Por lá só o que se vê é o rastro da destruição. Casas inteiras atravessaram a rodovia e foram parar no rio. Nem as árvores sobreviveram. E esse é apenas um exemplo das dificuldades enfrentadas por moradores de bairros carentes das cidades do Norte do Paraná atingidas pelas fortes chuvas dos últimos dias.
Na casa de Estela não sobrou nada. A marca de barro acima da altura das janelas é uma mostra do tamanho do prejuízo. "Só deu tempo de juntar as crianças e sair. Quando saímos a água já estava no joelho. Foi uma coisa que nunca vi na minha vida. Até agora a gente olha e não acredita, parece cena de filme", relatou a trabalhadora, que mora com o marido e dois filhos pequenos no local há pelo menos oito anos. "Até o nosso carro foi parar dentro da água. Hoje (ontem), a máquina conseguiu tirar, mas não sei como está. A gente criava porcos, galinhas, tudo desceu rio abaixo", contou Estela.
Para o entregador Jorge Lopes de Oliveira, o drama foi ainda pior. "A minha casa ficava bem aqui", aponta, enquanto tenta segurar as lágrimas. A pequena residência de madeira onde ele morava com a esposa e um filho de 6 anos simplesmente sumiu. Sobrou só um pedaço do chão. "Fazia cinco dias que eu tinha comprado uma geladeira nova. Agora estou só com a roupa do corpo e os documentos, que consegui recuperar no meio da lama", lamentou.
Desde o dia da chuva, Jorge está abrigado com a família na casa de uma tia de sua esposa. Ao mesmo tempo em que lamentava as perdas, ele já fazia planos para se recuperar. "Mas está bom, estamos vivos e a vida continua. Agora vou procurar uma casa para alugar e sair daqui. Não dá mais para ficar", disse.
Até ontem, os quase 50 residentes do local ainda permaneciam sem água e energia elétrica. Enquanto alguns relatavam o drama vivido à reportagem, uma força-tarefa dos moradores tentava tirar da água alguns pertences. Uma retroescavadeira enviada pela Prefeitura de Tamarana ajudava na missão. Funcionários da Copel também trabalhavam no local para tentar normalizar o fornecimento de energia elétrica.
Pelo menos, o nível do rio já baixou bastante, mas o medo de uma nova chuva ainda deixa os moradores em alerta total. "Tomara que agora pare. Precisamos começar a recuperar as coisas e retomar a vida", falou o servente de pedreiro Thiago de Oliveira, de 24 anos, que mora no local desde que nasceu. A reportagem tentou contato com o prefeito de Tamarana, Paulino de Souza, no final da tarde de ontem, mas ele visitava áreas rurais e seu celular estava sem sinal.

RODOVIAS
Mesmo com a parada das chuvas, circular pela PR-445, entre Londrina e Tamarana, ainda exige muito cuidado dos motoristas. As pontes já estão liberadas, mas a situação ainda é bem crítica em alguns pontos, como na ponte sobre o Rio Taquara, distante cerca de 150 metros da entrada do Distrito de Guaravera. A força da chuva arrancou árvores, a proteção da ponte e parte do asfalto. O trânsito está liberado em apenas uma das pistas. A reportagem contou ainda pelo menos 12 pontos onde ainda havia terra na pista, em virtude de deslizamentos. Funcionários do governo estadual trabalhavam na limpeza da rodovia.

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