Compulsão por compras tem cura
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quinta-feira, 17 de abril de 2003
Fábio Galão<br>Reportagem Local 
Eduardo estava em Santo Antônio da Platina a trabalho, prestando serviço para uma firma de propaganda. Com alguns minutos de folga à disposição, ele aproveitou para visitar uma livraria. Saiu de lá com uma caixa com mais de 30 livros, a imensa maioria sobre assuntos que não lhe interessavam. ''Não precisava de nada daquilo, comprei por comprar'', admite ele.
Em setembro de 2001, com a ajuda da esposa e de amigos, Eduardo criou o grupo dos Devedores Anônimos (D.A.) de Londrina. O projeto foi criado nos anos 60 nos Estados Unidos, e tem representantes no Brasil desde 1997. O trabalho realizado nas reuniões semanais é semelhante aos grupos de ajuda a viciados em álcool e drogas neste caso, o objetivo é tirar do fundo do poço pessoas que têm compulsão por gastar. Vício que, num mecanismo semelhante ao das dependências químicas, atrapalha o cotidiano de quem sofre do problema e azeda suas relações no trabalho, com amigos e família.
Eduardo conta que tinha tal impulso desde a infância, quando mantinha inúmeras coleções de todo tipo de material. ''Adulto, eu gastava demais com objetos de cultura. Eu tinha uma estante com mil livros e uma videoteca com mais de 500 títulos. Era um vício. Quando procurei ajuda nos folhetos do D.A., eu estava com uma dívida de R$ 12 mil'', lembra ele.
O relacionamento com a esposa, Marina (todos os nomes desta matéria são fictícios para preservar a identidade dos entrevistados), já sofria abalos sérios. ''É como estar com um parente doente. É a pior sensação do mundo'', diz a mulher. O endividamento e o gasto compulsivos são diagnosticados como uma patologia chamada oneomania, que atinge um homem para cada quatro mulheres e 3% da população brasileira, segundo especialistas. No Brasil todo, apenas o Hospital das Clínicas de São Paulo oferece tratamento para a doença. ''Em casos extremos, é preciso receitar medicação'', justifica Eduardo.
O D.A. de Londrina já realizou 80 reuniões desde sua criação. Os encontros são realizados toda segunda-feira, às 19 horas, numa sala na Catedral; o grupo atual oscila entre 12 e 15 membros, mas cerca de 120 pessoas já compareceram às reuniões. Nos encontros, todos os presentes são chamados a contar os dramas criados pelo exagero nos gastos e recebem instruções de auto-ajuda, como os chamados 12 passos do D.A., realizados simultaneamente aos 12 passos da desintoxicação financeira.
''A mídia e a sociedade de consumo influenciam, é claro, mas é importante admitir que esta necessidade de gastar vem de nós mesmos, da falta de educação financeira. A pessoa precisa assumir que tem uma impotência e que precisa de ajuda'', diz Eduardo.
Ainda nos seus primeiros passos, o grupo de Londrina já mudou histórias de vida. A tesoureira do D.A., dona Jussara, se lembra da vez em que entrou num banco e encontrou um casal desesperado. ''Eles estavam tentando renegociar suas dívidas e não tinham conseguido. O homem ficou desesperado, começou a gritar que iria dar cabo da própria vida. Conversei com a mulher dele e eu lhe mostrei uns folhetos do D.A.'', conta ela, às lágrimas. ''Eles estavam devendo algo em torno de R$ 300 mil. Eu nunca esqueço da vez em que, um tempo depois, a esposa me ligou para dizer que devia a mim o fato dela não ser viúva e dos seus três filhos ainda terem pai''.
O comerciante Valdir procurou o D.A. há um ano e meio. Nessa época, sua compulsão já havia provocado seu divórcio e feito com que um de seus três filhos não falasse mais com ele. ''Eu gastava uns R$ 400 a mais por mês do que eu ganhava. Anos atrás, eu não sentia que gastar muito era um problema, porque eu tinha rendimentos melhores. Quando meu poder aquisitivo caiu, pela inflação e pela própria situação do país, percebi o que estava acontecendo'', lembra o comerciante.
Valdir diz que gastava demais com comida (doces, queijos) e em pequenos presentes para a família. ''A minha esposa arcava com muitas das minhas despesas, e é por isso que meus filhos se indispuseram comigo, pois eles viam o quanto ela sofria. Percebi que precisava de ajuda depois do divórcio. Um amigo que ia ao D.A. me recomendou o grupo'', diz ele.
Hoje, Valdir enxerga que não precisava gastar tanto com presentes. ''Hoje eu percebo que existem outras formas de dar alegria a uma pessoa'', afirma o comerciante.


