Curitiba - Foi quando sofreu um aborto, aos 11 anos, que Gracieli (nome fictício) descobriu que era soropositiva. Na época ''não deu bola'' para o que o médico lhe informara sobre sua saúde. A notícia não tinha como ser digerida por uma garota que não sabia nem como tinha perdido a virgindade precocemente, aos dez anos. ''Um homem que eu conhecia, de vista, pagou muitas bebidas e depois me levou para a casa dele'', lembra. ''As pessoas da rua me falavam que ele tinha Aids, mas não dava para acreditar, ele era bonitão.''
Aos 12 anos, Gracieli encontrou um homem de 32 anos, com quem está morando. Ficou grávida novamente e teve outro aborto quando, pela segunda vez, foi alertada pelos médicos sobre sua doença. ''Só aí a minha ficha caiu. Fiquei em choque. Também tive medo de ter contaminado o meu marido, mas ele fez vários exames e deu negativo. Pensei que ele iria me largar, mas não foi o que aconteceu'', disse a garota, com uma desenvoltura que chega a espantar pelos seus 14 anos de idade. Ela é mãe de duas meninas gêmeas, de seis meses.
Gracieli é uma das jovens, com idade entre 10 e 19 anos, responsáveis pela feminização da epidemia da Aids no Estado, segundo Wilsa Regina Amaral, técnica da Vigilância Epidemiológica da DST/Aids do Paraná.
O total de mulheres contaminadas nessa faixa etária, considerando a série histórica entre 1984 e 2009, já superou o número de homens. São 285 casos notificados de meninas vivendo com a Aids contra 209 meninos, até maio deste ano, de acordo com dados do Data SUS.
''Isso significa que elas não estão se protegendo. Nos preocupa porque elas estão aumentando a contaminação entre as mulheres. Por isso, o Estado foca o trabalho no programa Saúde e Prevenção nas Escolas para atingir essa faixa etária'', informa Wilsa.

Sonho
A família de Gracieli mora na Região Metropolitana de Curitiba. O casal só tem relações sexuais com preservativos e faz exames anti-HIV de rotina. ''Engravidei sem meu marido saber. Peguei o sêmen dele da camisinha e injetei em mim. Eu tinha o sonho de ficar grávida. Minhas filhas, graças a Deus, não têm nada.''
''Eu tenho medo de morrer e deixar minhas filhas pequenas. Mas fazer o quê? Eu não posso voltar no tempo, a vida continua. Se eu parar para sofrer com tudo isso, será pior'', desabafa Gracieli que, recentemente, iniciou tratamento com antirretrovirais.

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