COMPORTAMENTO - Pesquisa revela a 'geração videoclipe'
PUBLICAÇÃO
domingo, 08 de maio de 2005
Flávia Guerra<br> Agência Estado 
A sociedade enfrenta um impasse. Os adultos não sabem o que fazer com seus jovens. Eles são, em sua maioria, vaidosos ao extremo, hedonistas, egoístas, egocêntricos, não acreditam em projetos coletivos, não são engajados, têm dificuldade de conviver com o futuro, de fazer planos e levam a busca pelo prazer imediato às últimas consequências. Tais constatações foram apresentadas na semana passada pela MTV, que divulgou seu ''Dossiê Universo Jovem 3'', um grande mapeamento do comportamento dos brasileiros de 15 a 30 anos, das classes A, B e C, que vivem em cidades como São Paulo, Salvador, Porto Alegre, Brasília e Rio.
Fruto do projeto minucioso da emissora, divulgado na semana passada, o ''Dossiê'' revela números e dados ''assustadores para uns e até engraçados para outros', como afirmou o diretor geral da MTV Brasil, André Mantovani. O Dossiê pode ser utilizado como forte ferramenta para publicitários e afins que queiram definir seu público alvo. Mas também pode ser usado como base para definir novas diretrizes por educadores, pesquisadores e fundações que lidam com questões sobre a juventude. A pesquisa, sob coordenação geral de Ione Maria Mendes, trata de quatro temas principais: Drogas, Sexualidade, Vaidade e Beleza e A Comunicação na Era da Tecnologia.
Os resultados provam que o jovem brasileiro está cada vez mais complexo. Não se limita mais a ser dividido em tribos simplistas. Há nuances e variações de comportamento que desafiam qualquer educador. Para começar, desde 1999, quando foi realizada a primeira pesquisa, o número de jovens que possuía celular saltou de 19% para 71% em 2004. Hoje, dos 2.359 entrevistados, 46% possuem computador em casa contra apenas 22% em 1999. O acesso à internet saltou de 15% para 66% nestes anos. Os blogs e fotologs, que nem existiam há poucos anos, agora são conhecidos por 59% e 51%, respectivamente.
As palavras mais lembradas pelos entrevistados para definirem sua geração foram ''vaidosa'', com 37%; ''consumista'', com 26%, ''acomodada'', com 22% e ''individualista'', também com 22%. Tamanha autocrítica não resulta em ação. Os jovens parecem se mostrar cada vez menos preocupados com sexo seguro, evitar drogas e se engajar em projetos sociais. A prática sexual se tornou muito mais descompromissada, individualista, com direito a inconsequências. A perda da virgindade é cada vez mais precoce. Da amostra total, 83% já teve relações sexuais e a primeira vez acontece, em média, aos 16 anos. 22% dos entrevistados perderam a virgindade antes dos 14 anos.
Basicamente, segundo a pesquisa, os jovens brasileiros podem ser divididos em seis principais grupos que vão dos antenados tecnologicamente aos conservadores, passando pelos engajados e mais vaidosos e alienados.
Mario Sergio Cortella, filósofo e professor da PUC-SP, convidado para comentar e refletir sobre os resultados, observou: ''Nossos jovens têm dificuldade de lidar com o futuro. Levam a ética perigosa do hedonismo e do individualismo às últimas consequências. Têm grande dificuldade de lidar com a construção coletiva da vida.'' ''Estão esticando cada vez mais a adolescência, aprisionados em um futuro que não existe. Isto é de nossa responsabilidade, nós, da geração dita mais velha'', prosseguiu. ''Este estudo revela que os jovens estão vivendo cada vez mais velozmente, como se não houvesse um futuro possível, até o esgotamento, num ritmo frenético. São incapazes de manter a atenção por mais de seis minutos porque cresceram assistindo a programas infantis na TV cujos blocos duravam este tempo.''
Ironicamente, 66% desta geração ''videoclipe'' afirma que assiste à MTV, emissora que muitas vezes veicula programas e clipes de linguagem imediatista, frenéticos, que não duram mais de três minutos. Ao ser questionado sobre a postura da MTV diante desta contradição, André Mantovani, diretor geral do canal no Brasil, comentou: ''Acho que a MTV é um pouco esquizofrênica. Ao mesmo tempo que fazemos campanhas pela leitura, veiculamos esta linguagem imediatista dos clipes.'' Qual seria, então, o papel da MTV diante dos fatos e dados? ''Tentamos encontrar um equilíbrio. A revista da MTV, as campanhas pelo sexo seguro, pela leitura tentam ser um contraponto. Quando fizemos o 'Fica Comigo Gay', ficamos preocupados em se estaríamos valorizando este pensamento do 'vale-tudo', da banalização do sexo'', completa.
'''Ao mesmo tempo, a MTV não possui caráter necessariamente educativo. Não vamos deixar de produzir entretenimento. Mas podemos utilizar nosso poder de comunicação para divulgar outros valores'', conclui. Cortella ainda tem esperança. ''Veja bem, esperança é ser esperançoso e não esperar'', comentou. ''Temos que fazer não o possível, mas o melhor para construir uma nova realidade'', concluiu. Resta definir como a MTV e a sociedade em geral deve começar a agir a partir de agora.


