COMPORTAMENTO - Mesmo condenada, a mentira faz parte do dia-a-dia
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quarta-feira, 02 de agosto de 2006
Marta Ortega<br> Reportagem Local 
Apesar de condenada, a mentira é um traço inevitável da comunicação entre os humanos. Na semana passada, o Brasil assistiu estarrecido dois casos chocantes que tiveram origem em simples mentiras. O primeiro foi o julgamento de Suzane von Richthofen e dos irmãos Daniel e Cristian Cravinhos, acusados de matar o casal Manfred e Marísia von Richthofen, em outubro de 2002. No júri, prevaleceram acusações entre os próprios réus, que alteraram as versões apresentadas na época do crime.
A mentira, neste caso, começou no dia do assassinato, quando os acusados choravam a morte do casal, durante o enterro, antes de serem descobertos como autores do crime. O País inteiro ficou assustado diante da farsa e de tanta frieza.
A tragédia também foi consequência para dois jovens de São Paulo, após contarem uma mentira aparentemente inocente à família em novembro de 2003. Por medo de ser impedida pelo pai, a estudante Liana Friedenbach, na época com 16 anos, mentiu, dizendo que ia para a casa de uma amiga, quando na verdade, foi acampar com o namorado, o também estudante, Felipe Caffé, então com 19.
O casal que acampava em Embu-Guaçu (47 Km de São Paulo), foi rendido por criminosos, que mataram Felipe com um tiro na nuca e mantiveram Liana em cativeiro durante três dias, antes de estuprá-la e matá-la a facadas. Uma mentira simples, a princípio sem maiores consequências, mas que culminou em consequência grave.
Sem maldade, servindo como desculpa ou mesmo dita de forma intencional, visando algum tipo de vantagem, a mentira sempre está presente nos relacionamentos. Estudos realizados pelo psicólogo Robert Feldmann, da Universidade de Massachusetts, nos Estados Unidos, apontam que 60% da população mundial mentem.
Definida como ato de mentir, engano, impostura, falsidade, a mentira é um ato verbal. As ações verbais têm uma característica especial: atuam sobre o comportamento de outras pessoas, levando-as a se comportarem de determinada forma. Por isso, na maioria das vezes, quem mente, quer sempre se beneficiar de alguma coisa. O benefício pode vir, mas as consequências vêm também.
Psicóloga e professora do curso de graduação em Psicologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Verônica Bender Haydu, mestre e doutora pela Universidade de São Paulo (USP) na área de Psicologia Experimental, afirma que todo o indivíduo mente. ''Em algum nível, o indivíduo faz algo que não é verdade total''.
São vários os tipos de mentiras. As consideradas desculpas, que não têm maldade (mas que também podem ter consequências, dependendo da situação), as sérias, como as de infidelidade, de roubo, de falso testemunho e outras que causam danos às pessoas e à sociedade, e ainda, a do mentiroso compulsivo, aquele que criou uma história de vida falsa e que mantém a mentira como uma padrão regular de comportamento. ''Este tipo de pessoa, muitas vezes, requer tratamento psicológico, pois não percebe quando estáá mentindo e não discrimina mais a diferença entre a realidade e as fantasias que criou''.
Verônica explica que o indivíduo mente porque consegue se beneficiar com a mentira. A consequência, segundo ela, é boa, pelo menos a curto prazo. ''De alguma forma, a mentira traz benefícios para quem mente, a maior parte das vezes, de imediato''.
De forma geral, pessoas galanteadoras, tanto homens quanto mulheres, acabam mentindo muito. Conquistar o outro, fazendo elogios muitas vezes enganosos, faz parte da rotina dessas pessoas. Essa mentira também pode trazer benefícios para ambas as partes, mesmo que o elogio não seja sincero. ''Se você elogia uma pessoa e isso não condiz com a verdade, o elogio pode fazer com que aquela pessoa se sinta melhor e quem elogiou pode também se beneficiar com isso. É um jogo em que a pessoa, em última instância, é beneficiada também''.
A psicóloga afirma que pessoas que querem ser sedutoras e enganam outras o tempo todo, acabam sendo vítimas da própria mentira. Segundo Verônica Haydu, construir uma mentira é fácil. Difícil é sustentá-la. ''Uma hora ou outra, a pessoa acaba se traindo por não se lembrar dos detalhes da mentira, já que o ser humano tem mais facilidade de guardar na memória momentos que ele tenha vivenciado''.


