Olhos azuis, 1,63 metros e 98 quilos. Robiane Smaniotto é hoje aquilo que mais odiou durante a juventude e que a fez tornar-se traficante: gorda. Aos 13 anos, com oito quilos acima do que considerava o peso ideal, ela começou a usar maconha. Aos 16 anos era viciada em cocaína e injetava a droga na veia. O divisor de águas em sua vida seria um encontro com o então diácono Antônio Caldeira, mas só depois de perder o respeito da família e de pagar, em dinheiro, pela liberdade.
O vício era, segundo ela, uma fuga por causa do complexo de inferioridade e sentimento de rejeição. ‘‘A sociedade faz isso com a gente’’, reclama. ‘‘Eu fugia do padrão (de beleza) e, por isso, virei motivo de piada’’, afirma. Robiane diz que, então, optou pela rebeldia.
Para sustentar o vício, ela acabou ‘‘trabalhando’’ a droga, uma forma de tráfico. Comprava um pedra de cocaína, repartia, fazia misturas e vendia parte do produto. A metade que havia separado, consumia. Aos poucos, Robiane foi acumulando problemas. Furtou dinheiro da família e aplicava golpes no comércio de Curitiba com cheques roubados por conhecidos. Isso, segundo ela, evitou a prostituição, caminho natural de adolescente que tem o mesmo roteiro de vida.
O estelionato, no entanto, fez dela uma vítima de policiais corruptos. Para evitar uma prisão, Robiane teve de pagar e caro. Como não tinha dinheiro, foi obrigada a revelar seu problema a irmã, que emprestou o dinheiro. Os pais desconfiavam e faziam perguntas. Ela negava o vício e dizia que tinha problemas apenas com o álcool. A pressão contínua da família e o fim da relação amigável com a polícia e com os traficantes fez Robiane pensar em mudar de vida. Mas faltava coragem.
Disso se encarregou o destino. Robiane vendia droga numa esquina do bairro Xaxim e por ela passou o diácono Caldeira, que já trabalhava com drogados. Robiane ofereceu o ‘‘bagulho’’. Caldeira disse que tinha um ‘‘bagulho’’ melhor e falou de Deus. As palavras seriam, segundo ela, a semente da transformação. ‘‘Ele falou que eu podia mudar de vida e eu fiquei perturbada’’, conta. ‘‘Eu era uma viciada que queria mudar, mas não tinha força. Ele foi essa força, pois se ele conseguiu eu também podia conseguir.’’
Antes de contar para a família que era viciada, Robiane acertou seu ingresso na comunidade Hermon. Cinco anos depois, ela está completamente livre do vício e trabalha para ajudar cerca de 100 internos. Apesar de ter engordado 36 quilos desde então, ela afirma estar de bem com a vida. ‘‘Hoje em dia isso não tem peso. Eu me assumi. Acabei vendo meus valores, independentemente de ser gorda ou não.’’

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