A fórmula é bem simples e em dez minutos é possível dar forma ao sabão. É com essa receita que um casal de baianos está mudando a vida de muitas famílias que vivem na periferia de Londrina. A iniciativa começou há sete anos através do projeto ''Sabão'' e hoje está regularizada como Casa Acolhedora Mãe Rainha (Camar), com a participação de oito voluntários. Ao longo do tempo, o programa foi ganhando proporções do tamanho do sonho de dona Iraci Andrade dos Santos, de 67 anos, e de seu companheiro Francisco Rodrigues da Costa, 66.
''Hoje, atendemos 60 famílias carentes, sendo 43 só do (Residencial) Vista Bela. Ao todo, são 180 crianças. Toda quinta-feira, doamos roupas e calçados e às sextas preparamos uma sacola com frutas e verduras e pedras de sabão feito por nós'', explica dona Iraci, que aprendeu a dirigir aos 50 anos só para conduzir a Kombi que transporta os alimentos do Ceasa até o projeto e também percorre os bairros.
Na sede localizada no Jardim Alto da Boa Vista (Zona Norte), os voluntários recebem as doações e separam as roupas, calçados, bolsas, brinquedos e móveis usados que serão comercializados no quintal do projeto, onde também é fabricado o sabão com óleo usado e soda.
''Conseguimos uma parceria com um restaurante da cidade e eles doam toda semana para nós. Já a soda conseguimos comprar depois de bater em casa em casa, juntando moedinhas'', conta dona Iraci, idealizadora do projeto. As despesas fixas, como o combustível da Kombi que anda por toda a cidade, são pagas com o dinheiro arrecadado na venda das roupas e móveis.
Realidade
Nascida na Bahia, mas criada em Atibaia, no interior de São Paulo, dona Iraci trabalhou muitos anos como encarregada de confecção e nas horas livres era voluntária na Igreja. Parte de seus familiares vive em Londrina, que passou a ser sua morada há 10 anos.
''Eu tinha na cabeça a ideia fixa de ter um projeto social. Pedia muito a Deus por esse sonho, pois minha vontade era ficar perto das pessoas, criando um vínculo de amizade e, assim, ajudando a melhorar a vida delas. Ninguém me ensinou a me preocupar com o próximo. É um dom que exercito em troca das bençãos de Deus. Só de ter saúde já é uma gratificação'', revela.
Mãe de um casal de filhos e casada pela segunda vez, dona Iraci encontrou no companheiro a ajuda para transformar seu sonho em realidade. Aposentados, se mudaram para Londrina, onde participaram da Pastoral da Criança. ''Eu via a necessidade de atender também não só as crianças, mas todas as pessoas, independente da idade. Foi aí que um dia, em uma das visitas pela Pastoral, percebi que as crianças andavam sujinhas porque as mães não tinham sabão suficiente para lavar roupas. Veio a ideia de fazer sabão'', lembra.
Com a distribuição do produto, dona Iraci foi observando que muitas famílias não tinham roupas. E foi na sola do sapato que passou a ampliar o projeto. Batia de porta em porta pedindo doações de agasalhos, roupas de cama e calçados. ''Passei a cadastrar as famílias atendidas porque para receber os donativos elas devem estar no caminho certo. As crianças devem frequentar a escola e os pais devem estar empregados ou, pelo menos, buscando um trabalho. Em cada bairro, tenho uma pessoa que me ajuda na distribuição e no acompanhamento das famílias'', explica.
Respeitada por todos, dona Iraci tem se tornado um exemplo de força e dedicação, principalmente para o companheiro Francisco, que afirma ter aprendido a ser mais atencioso e solidário com as pessoas. ''Quando eu morava em São Paulo, ganhava bem e dava muito valor ao dinheiro, mas fui aprendendo que dividir é bem melhor. Nada substitui um sorriso, um abraço ou simplesmente, um muito obrigado. O londrinense é muito caridoso'', desabafa.

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