COMPANHIA INUSITADA
Ponto de ônibus é sempre um bom local para jogar conversa fora. Bastam duas pessoas, uma falando, outra escutando. E mesmo que o ouvinte seja daqueles que costuma responder no monólogo, às vezes até com o irritante ''hum hum'', acompanhado do aceno de cabeça, passa-se o tempo, enquanto o ônibus não chega. Pode ser que chegue uma terceira pessoa, ou a quarta, quem sabe até a quinta. Alguns, mais inibidos, só escutam, tratando de fazer de conta que nada ouvem. Outros entram na conversa, até se dão ao direito de bisbilhotar, quando o assunto é meio particular. E quando esse terceiro não é gente, o que se faz? Continua-se a conversar, como fazem as duas senhoras, mas com a sensação de que algo está errado. O cavalo, de aparência dócil, quer sua parte de sombra. A conversa das duas, seja sobre problemas domésticos ou sobre o último capítulo da novela, não lhe interessa. E como aqueles que vão chegando, de manso, para conquistar um espaço no meio da turma, ele foi se ajeitando, até fazer parte da cena. O ônibus passou pouco depois e levou as duas senhoras. Ele ainda ficou por algum tempo, aproveitando a sombra.





