Nos dias quentes, sorveteiros atendem muita gente. Atende carteiro flagelado pelo sol de meio-dia. O menino que desafia a dor de dente para não perder ponto para o irmão mais velho. O senhor que evita o gelado apenas em temperaturas decentes. A garota que traz um monte de moedinhas do seu cofrinho e que nem precisa ''pendurar'' o que faltou (porque sorri com tanta graça que não dá para cobrar mais nenhum centavo). A mãe, que sai de bobs pela rua, pedindo um picolé de tangerina: ''Anda logo que meu feijão tá queimando''. O garoto da periferia endemoninhado que pega na buzina do carrinho e não solta mais. Atende a contragosto o pai chegando do trabalho, lá no alto da ladeira, e que sempre quer que Maomé vá até à Montanha. O pão-duro que tem quatro filhos e compra dois picolés. O guloso que volta cinco vezes ao carrinho em 15 minutos. Quando a fome aperta é hora de interromper a maratona e tentar relaxar em alguma sombra generosa. Sempre se arruma um companheiro almoçar sozinho é tão chato. Mas aí o Totó chega, o marmitex tá com cheiro bom. O calor é tanto que não se sabe se o latido insistente do outro lado da grade é pelo aroma do frango ou uma reivindicação de freguês. ''Só tem de abacaxi, groselha e côco queimado'', ironiza um deles, enquanto seus ouvidos são maltratados. (Lúcio Flávio Moura, de Londrina)

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