Homicídios geralmente causam comoção. Dependendo de quem é a vítima ou a forma de execução do crime, essa comoção se transforma em revolta e o resultado pode ser desastroso.
Na quarta-feira uma casa foi incendiada em Cambé (Norte), depois do dono confessar ter estuprado e assassinado uma garota de 9 anos. Em dezembro, populares também atearam fogo à residência do acusado de assassinar um homem de 89 anos.
Atitudes como essa demonstram a falência da Justiça? O que leva pessoas até então pacatas a agirem como vândalos? De acordo com o porta-voz do 5º Batalhão da Polícia Militar, tenente Marcelo Barros do Nascimento, em casos de comoção popular já se espera reações deste tipo. Por isso a polícia tenta agir com discrição e toma outras providências, como ter retirado a família do acusado da residência logo após a prisão dele, no caso de Cambé.
''Em casos de roubo muitas vezes é instintivo reagir. Quando envolve mulheres e crianças também duvidam que o agressor será devidamente punido e isso leva as pessoas a reagirem'', explica. Ele ressalta, porém, que apesar das pessoas se valerem do anonimato, caso sejam identificadas irão responder pelas consequências de seus atos.
Fatores
Pedro Bodê, sociólogo e coordenador do Centro de Estudos em Segurança Pública e Direitos Humanos da Universidade Federal do Paraná, pontua que casos como esses devem ser vistos com muita atenção. ''Esse é um fenômeno muito estudado e as pessoas não fazem por simples baderna e sim por indignação. Em várias regiões do país houve um tempo onde os linchamentos se tornaram comuns.''
De acordo com o especialista, basicamente três fatores levam a essas reações populares: intenso sentimento de indignação, medo de que volte a acontecer e a falta de crença na Justiça. ''Apesar de qualquer coisa, essas reações não devem ser entendidas como aceitáveis. Quando uma pessoa participa do linchamento de outra, ela se torna tão desumana quanto quem cometeu o delito. Esses casos começam com indignação e não sabemos como acaba.'' Bodê lembra de casos em que pessoas invadiram delegacias para sequestrar suspeitos e fazerem justiça com as próprias mãos.
Ele também acredita que tornar as leis mais severas para tentar diminuir a sensação de impunidade que algumas pessoas possam vir a ter não é a solução. ''Quem tem mais recursos é menos punido, isso vai se voltar contra os pobres'', alerta. O importante, segundo o sociólogo, é apesar de toda indignação, não tomar nenhuma atitude de ''cabeça quente'', porque os resultados nunca são bons.

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