O Paraná foi um dos principais palcos brasileiros de atuação da Operação Condor, o sistema multinacional e integrado de repressão a opositores políticos adotado pelas ditaduras militares que governaram os principais países sul-americanos durante as décadas de 70 e 80. A explicação principal é geográfica: o Estado faz fronteira com Paraguai e Argentina, países que atravessavam dois dos mais sangrentos governos do continente na época.
Formalizada em 1975, com o apoio dos Estados Unidos, a Operação Condor integrou ações dos sistemas repressivos de seis ditaduras – Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai, Chile e Bolívia. Mas a ação precursora desse sistema ocorreu menos de um ano antes dessa data, em território paranaense.
Em dezembro de 1974, o Exército brasileiro sequestrou em Foz do Iguaçu, a pedido do governo de Alfredo Stroessner (1954-89), três paraguaios e um argentino exilados havia até 15 anos na cidade da fronteira. Alejandro Stumpfs, Rodolfo Mongelos, Aníbal Abbate Soley e César Cabral eram opositores da ditadura paraguaia. Os detalhes sobre esse episódio que, surpreendentemente, não teve o desfecho esperado – a ‘‘extradição’’ dos quatro prisioneiros – é relatada na página 2 deste caderno.
Também teria ocorrido no Extremo-Oeste do Paraná os supostos assassinato e ocultação dos cadáveres de sete guerrilheiros de esquerda – seis brasileiros e um argentino. Eles teriam sido capturados em 77, pelo aparato de repressão brasileiro, quando entravam no País para desenvolver ações armadas contra o governo de Ernesto Geisel. A história desse grupo, com seus desdobramentos atuais, está na página 3.
Testemunhas ouvidas pela Folha contam que, em 1978, a Polícia Federal brasileira prendeu em Foz do Iguaçu, também a pedido de Stroessner, o guerrilheiro paraguaio Remigio Gimenez. Neste caso, o desfecho foi o esperado. De acordo com esses relatos, após capturar Gimenez na Vila Portes (bairro à margem do Rio Paraná), os agentes o colocaram em um camburão e cruzaram os 554 metros da Ponte da Amizade com o veículo.
Já em solo paraguaio, entregaram o prisioneiro, que vivia asilado no Brasil, à Marinha do país vizinho. Único sobrevivente do grupo guerrilheiro 14 de Maio, que combatia Stroessner, Gimenez permaneceu dez anos na prisão. Hoje, aos 80 anos, vive em Assunção.
A atuação da Operação Condor no Paraná também foi marcada por uma situação de heroísmo romântico. No final da década de 70, um jovem casal de argentinos, militante do grupo de esquerda Montoneros, cometeu suicídio quando cruzava o Rio Iguaçu em um pequeno barco, indo de Foz a Puerto Iguazú, na Argentina.
Eles decidiram provocar a própria morte quando perceberam que eram aguardados por policiais na margem argentina do rio. Os policiais argentinos haviam sido informados por colegas brasileiros, que seguiam o casal. Sem alternativa à prisão, os dois tomaram os envelopes de cianuerto que levavam no bolso. Andar com veneno era prática comum entre guerrilheiros latino-americanos. Muitos deles preferiam a morte à prisão e à tortura.
‘‘Não temos dúvida de que todas essas pessoas foram vítimas de um acordo internacional de troca de informações, logística de repressão e prisioneiros’’, afirma Aluizio Ferreira Palmar, 57 anos, ex-líder dos grupos Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) e Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), e atualmente secretário de Comunicação Social da Prefeitura de Foz do Iguaçu.

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