Como nossos pais
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quinta-feira, 09 de agosto de 2001
Maranúbia Barbosa 
Independente do apelo comercial, não dá para não comemorar o Dia dos Pais, no próximo domingo. Os filhos são espelhos, ainda que não queiram. Por mais que tentem ser diferentes, sempre haverá nos filhos algo dos pais. As pessoas mais atentas verão gestos, traços físicos e um pouco da personalidade dos pais nos filhos.
Dia dos Pais é a oportunidade para olhar para esse homem e procurar nele se identificar. O que o filho teria em comum com o pai? Seria, talvez, o gosto pelo futebol? A paixão do pai pela bola sempre foi incompreensível para o filho que preferia xadrez. Nunca combinaram no quesito esporte. Para reforçar a diferença, o pai gostava de boxe. O filho aprendeu gamão. Além de tudo, o pai era imbatível no dominó. Cresciam as diferenças entre um e outro.
No final de semana, enquanto o filho buscava o quarto e o livro, o pai pescava. O pai, caniço e samburá. O filho, enciclopédia, tela e tinta. O pai limpava os peixes. O filho não gostava do cheiro. Preferia empadas. Logo de manhã, o cheiro do café se espalhava pela casa. Era o pai que madrugava. O filho pedia chá e torradas. No almoço, feijão e arroz para o pai. O filho pedia almôndegas. No cinema, ídolos diferentes. O pai, a chanchada e Mazzaropi. O filho, a nouvelle vague e Jean Luc Godard. Os dois, contudo, gostavam da pipoca.
No Dia dos Pais, há tempo para o filho olhar para si próprio e procurar semelhanças com o pai. Olhando com mais cuidado poderá ver em si os dedos das mãos grossas como de seu pai. No espelho, verá em si as mesmas sobrancelhas pretas. Os olhos escuros vão parecer como nunca iguais aos dele. Os pés largos, com dedos espalhados, nunca pareceram tão semelhantes. Olhando para dentro de si, verá ainda semelhanças com o jeito calado que o pai sempre carregou pela vida afora. Por fim, o filho compreenderá que o futebol, o boxe, o dominó, a pescaria, o peixe, o café, o feijão com arroz e Mazzaropi nunca representaram diferenças. O espelho, que não mente jamais, responde que o filho é a cara do pai.


