Faz apenas um ano que o sargento Éder Fernando de Oliveira, 44 anos, começou a ir para o trabalho com sua motocicleta. Antes, ele ia todos os dias a pé, mesmo tendo na garagem de sua casa uma moto novinha. A falta de coragem de seguir pelas ruas de Londrina sob duas rodas se deu na época que ele trabalhava como socorrista do Siate, em 1998, quando era comum Oliveira se deparar com várias pessoas acidentadas e até mesmo mortas.
''Um dia eu fui trabalhar e logo na primeira ocorrência atendi uma pessoa com fratura exposta. Eu conhecia a vítima, era o irmão de um bombeiro. Eu já tinha deixado a moto em casa porque ela estava com o pneu furado. Quando voltei, olhei pra ela e resolvi deixá-la lá e assim ficou, por dez anos'', lembra.
Hoje, Oliveira atua como adjunto da Central de Atendimento do Corpo de Bombeiros (Cobom) e passa a maior parte do tempo dentro do quartel, o que o deixou mais à vontade para voltar a pilotar a moto. ''Mas estipulei um máximo de 60 quilômetros por hora, não mais que isso'', comenta.
Assim como o sargento, outros socorristas do Siate sentem o reflexo do trabalho com vítimas de trauma. O cabo Carlos Alberto Ruiz, 42, bombeiro há 22 anos e há pouco mais de dez no Siate, conta que fez tratamento para as crises de enxaqueca ocasionadas pelo forte estresse. ''A família toda percebia meu estresse porque eu guardava pra mim todo o acúmulo de sensações. Fui me tornando uma pessoa intolerante e então resolvi procurar ajuda.''
E foi na pintura que o sargento conseguiu combater o esgotamento físico e emocional. Há pelo menos seis anos Ruiz passou a lidar com tintas, cores e formas. Um dos quadros pintados por ele, a imagem de um bombeiro resgatando um menino em meio às chamas, está pendurado logo na entrada do quartel. ''Sempre gostei de desenhar. Fiz algumas aulas de pintura e logo percebi que poderia me desenvolver sozinho. Pinto todos os dias, sempre que sobra um tempo. Hoje me sinto muito melhor, mas algumas ocorrências, como quando vi uma família inteira morta num acidente de carro, ficam eternamente na cabeça'', conta.
Da mesma forma que Ruiz, o socorrista Paulo Braziliano, 33, bombeiro há 12 anos e funcionário do Siate há cinco, se recorda com tristeza de ocorrências que envolvem crianças. ''Eu corro, pedalo, faço academia e natação. Sempre pratiquei muito esporte e acho que isso ajuda bastante. Tudo isso e uma alimentação saudável, além de vitaminas, me ajudam a aguentar toda a correria e me fazem sentir sempre bem e disposto no trabalho.''

mockup