Como foi que Karla Marinho chegou lá?
O primeiro passo para a inclusão não se dá na escola, mas na família. Se hoje Karla Marinho está mais perto de entrar para o restrito grupo das pessoas com deficiência que chegam ao Ensino Superior, é porque 19 anos atrás seus pais vislumbraram um futuro para ela. ''O diagnóstico dos médicos era de ela não ser nada. Mas a gente sempre creu em Deus. E a Karlinha, uma menina superdedicada, consciente, que sabe o que quer, chegou onde está e ainda vai muito além'', orgulha-se o pai, o vigia Edson Marinho, 44.
Nascida com paralisia cerebral, foi na Apae que Karla começou a desenvolver seu potencial. Aos nove anos, a família e os professores decidiram que a menina estava pronta para encarar os desafios da inclusão. ''As barreiras não foram poucas. Chorei muitas e muitas noites por ela. Preconceito houve sim, mas quem a discriminou hoje está lá atrás, enquanto ela avançou'', atesta Edson.
E para Karla, como foi cair em uma sala comum? ''Foi meio estranho. Lá na Apae só tinha cinco, seis alunos em cada sala. (Na escola regular) tem pelo menos 30. No começo o mais difícil é que tinha alguns alunos que eram muito rápidos. Eles terminavam logo os exercícios e eu queria acompanhar'', recorda. Hoje a dificuldade maior para a jovem não está mais na escola, mas no mercado de trabalho.
''Faz tempo que ela está tentando arranjar um emprego. Ela diz que aceita qualquer trabalho, até ser zeladora. Mas falta oportunidade para quem tem deficiência'', lamenta o pai, que vai matricular a filha em um curso de informática para aumentar suas chances.
A caçula da família, que tem síndrome de Down, já está frequentando uma pré-escola comum. A mãe, Marta, 37, diz que teve receio de tirar as duas filhas da ''rede de proteção'' representada pela escola especial, mas que é preciso dar um voto de confiança aos professores e às próprias crianças. ''Hoje uma criança só não vai para a frente se os pais ignorarem. Tem muito aluno com deficiência sem estudar não só porque as escolas não estão preparadas, mas porque a família não investe, acha que é dinheiro e tempo jogado fora'', conclui. (V.N.)





