Aquele dia estava propício para o ''crime''. Calorzão fora de época, nenhum compromisso sério no dia seguinte, tudo contribuia para que a noite fosse ser um sucesso. Pensando nisso, Marcinha se produziu para ir trabalhar já pensando na esticadinha depois do serviço. Pegou uma das blusas que mais gostava, calçou uma sandália bonita e, lógico, escolheu a calça mais justa que tinha aquela que toda mulher reserva para os dias (ou noites) que mais prometem.
Trabalhou o dia inteiro na maior animação. Afinal, era sexta-feira, estava bonita e queria aproveitar. Para completar a euforia, no meio da tarde, recebeu uma ligação daquele ''gato'' que andava de olho já algum tempo. Sutilmente, o convidou para a cervejinha e, glória das glórias, recebeu um ''pode ser'' animador.
O drama começou por volta das seis da tarde, quando Marcinha já estava com um pezinho na porta da rua. Resolveu dar uma conferida no visual e fazer o último pipizinho antes de sair. Pisando leve, foi ao banheiro da empresa, retocou o batom, penteou os cabelos e tentou abaixar o zíper da calça. Nada. Tentou de novo e, de novo, a mesma coisa. Já irritada, abaixou-se para conferir. A peça, das mais delicadas como de todas as roupas finas, estava irremediavelmente enroscada. ''Diacho. Se eu forçar vai arrebentar. Que faço? Não vou ter tempo de ir em casa trocar de roupa'', analisava mentalmente. Resolveu desistir do pipizinho. Afinal, ainda era cedo e não estava com muita vontade mesmo.
Saiu do serviço e foi, linda e leve, para o barzinho combinado com a turma. Como o gato só passaria por lá mais tarde, teria tempo para por as fofocas em dia. O papo ia animado quando, no terceiro chopp, veio a vontade de ir ao banheiro novamente. Somente lá é que Marcinha lembrou do seu probleminha. ''E agora? Se forçar vou ficar com a calça na mão e ter que ir embora. Não faço e pronto'', resolveu.
Voltou para mesa decidida mas com as pernas duras. ''Que foi, Marcinha? Tá com uma cara...'', perguntou uma da amigas. ''Nada não, tudo bem'', tranquilizou. Sentou-se, pegou o copo para beber, mas lembrou-se a tempo. Se pusesse mais uma gota na boca iria estourar. ''Não bebo mais, pronto'', consolou-se. Porém, o chopp já ingerido não dava paz. Marcinha cruzava as pernas, levantava, sentava, recruzava as pernas e nada da vontade ir embora. ''Ai, meu Deus, será que alguém teria um alfinetinho na bolsa?''. Ninguém tinha.
''Negócio é esquecer e esperar o gato'', consolava-se. Mas nem a próxima chegada do gato a fazia esquecer uma necessidade natural, aliás cada vez mais preemente. ''E esse cara que não me aparece? Assim não vou aguentar'', lamentava-se baixinho. Tanta inquietação acabou chamando a atenção da roda. ''Que foi, pô? Pára quieta'', reclamavam.
A situação já estava desesperadora para o lado de Marcinha quando o rapaz aparece no bar. Marcinha não pensou duas vezes. Pulou na frente dele, tascou-lhe um beijo e se mandou para casa. Ficou sem o gato, mas tremendamente aliviada.
* Este espaço é destinado a crônicas inspiradas no cotidiano das cidades.

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