Como é bom ser um aventureiro do amanhecer
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domingo, 01 de abril de 2007
Mariana Guerin<br> Reportagem Local 
O jogo era simples. Quem tirasse os números um ou seis no dado poderia comer um pedaço do chocolate. Mas, é claro, tinha uma pegadinha. ''Estamos no mundo antigo. A faca veio da terra do fogo e está queimando de tão quente. Para cortar o chocolate, é preciso colocar as luvas'', explica o mestre.
Começa a brincadeira e o primeiro a tirar o número seis perdeu a chance de ganhar o doce porque não conseguiu colocar a luva a tempo, já que outro companheiro tirou o número um. E o jogo, quase que sem fim, dura a manhã inteira de sábado, para a alegria dos aventureiros do amanhecer.
Mas por que aventureiros do amanhecer? ''Porque acordamos cedo todo sábado para brincar'', diz Vitor Philos Donato Luiz da Silva, 10 anos. ''E porque nós estamos amanhecendo para a vida'', completa o rei Vinícius Pimenta Silva, 13.
De acordo com o professor Charleston Luiz da Silva, nas manhãs de sábado, a galerinha esquece a realidade para viver no mundo do faz-de-conta. O pano de fundo é a era medieval e todos são tratados pelo sobrenome, ''para honrar a família'', assinala Vinícius.
Confiança em Deus, cortesia ao próximo e honra à Pátria são os valores que permeiam as atitudes dos aventureiros. O clube, que é uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip), reúne pouco mais de 20 alunos de escolas públicas de Londrina. Mas não são quaisquer estudantes e, sim, os melhores da classe, com média acima de 80.
''Existem vários programas de atividades extra-curriculares para alunos de risco, mas não para os bons alunos. E quem garante que os pais dos bons alunos têm dinheiro para pagar atividades extras para os filhos?'', questiona Silva.
''Eles também sofrem preconceito nas salas de aula. São chamados de ''nerds'' pelos colegas, que só lembram deles na hora de copiar a matéria. Mas na hora de chamar para uma festa, eles são esquecidos'', esclarece o mestre.
Vitor Augusto Bertin Borges, 12, já viveu na pele essa situação. ''Eles vivem pedindo o meu caderno e me chamando de tampinha, de Jimmy Neutron, diz menino que, no grupo, é o que tem a melhor média: 97.
Vindos de escolas onde a violência corre solta, eles se destacam e levam para o dia-a-dia o que aprendem no clube. ''Toda semana a gente recebe uma senha, que é uma palavra. Temos que procurar o significado dela no dicionário e usá-la numa frase'', conta Vinícius. ''Eles aprendem uma palavra nova por semana, quatro por mês, 48 por ano e 192 ao longo dos quatro anos em que participam do clube. Isso os ajuda a ganhar vocabulário para o preparo de redações na escola'', complementa o mestre Luiz da Silva.
Além dos jogos e da senha, as crianças participam de passeios e acampamentos, que ocorrem sempre ao final dos projetos. O grupo é dividido em quatro equipes - terra, ar, água e fogo -, que são lideradas pelos mais velhos. Nas manhãs de sábado, após hastear a bandeira brasileira e cantar o hino do clube, as equipes se reúnem para dar andamento aos projetos que contemplam ecologia, esporte, saúde e cultura.
''Não é uma ong social e sim cultural'', alerta o mestre. Segundo ele, as crianças se envolvem em campanhas sociais e oficinas de artesanato, cozinha, inglês, música, origami, prevenção de drogas e de incêndio, primeiros- socorros e teatro, além de rapel e passeios ecológicos. Eles também desenvolvem um jornalzinho, que é distribuido gratuitamente nas escolas, na época da campanha de vacinação do Município.
''Nossa meta é honrar o nome de nossas famílias e desenvolver a auto-suficiência'', afirma Vinícius. E o que eles levam do clube para casa? ''Aprendemos que é importante lavarmos os nossos pratos depois das refeições e as roupas íntimas no chuveiro, além de arrumar a cama'', assinala o rei Vinícius.
Nascido de uma colônia de férias da Escola Estadual Benjamim Constant, o Clube Aventureiros do Amanhecer é patrocinado por pais de alunos e padrinhos que apoiam a idéia, utilizando a estrutura do Grêmio da Associação de Funcionários da Prefeitura de Londrina, no Jardim Castelo (Zona Leste), para realizar as atividades semanais.
''Procuramos a diretoria das escolas em busca dos alunos com as melhores médias. Depois, chamamos os pais e os estudantes para uma reunião que explica o objetivo do clube. Se a família decidir participar, o aluno tem essas atividades aos sábado e mensalmente os pais participam da reunião do Clube dos Pais'', informa o mestre Luiz da Silva. Segundo ele, o próximo passo é criar a história dos cavaleiros do amanhecer para integrar alunos de 15 a 21 anos. ''Eles estão sempre salvando a princesa, mas quando forem mais velhos, passarão a salvar o sapo. No final, descobrirão que o sapo, na verdade, são eles mesmos e que um novo futuro se abriu diante dos olhos deles por causa da formação cultural que receberam'', explica Charleston Luiz da Silva.


