Curitiba Logo no primeiro dia de aula, ele não passou despercebido pelos colegas. Seus trejeitos seriam femininos demais para um menino e seus objetos escolares muito organizados e cheios de ''frufrus''. O jovem de 15 anos sabe que sua presença incomoda os que estão ao redor, apesar dele ser extrovertido, aluno aplicado, dono de discurso articulado e vocabulário um pouco acima dos garotos de sua faixa etária.
''É preciso se destacar para ganhar o respeito dos outros. Tive que fazer isso na outra escola que estudei. Fui o melhor atacante de vôlei da competição e só então todos passaram a me valorizar. Porque o normal é ser discriminado e julgado pelas pessoas, que olham com nojo e desprezo para quem elas supõem que sejam gays'', desabafa o garoto, que diz ainda não ter feito sua opção sexual. O testemunho dele é um caso típico de homofobia, comportamento caracterizado pelo medo, aversão ou ódio irracional aos homossexuais.
E no ambiente escolar não é diferente. Pelo contrário. Para quem ainda vive fases de descobertas da sexualidade, este tipo de preconceito se torna ainda mais perverso. O Centro Paranaense da Cidadania (Cepac) se voltou para as vítimas desse universo e promove capacitação sobre diversidade e sexualidade para professores de escolas públicas de Curitiba e Região Metropolitana. ''A homofobia é a maior causa de evasão escolar dos alunos GLT (gays, lésbicas e transexuais) e qualquer transformação no país precisa passar pelos bancos das escolas'', acredita o presidente da Cepac, Igor Martini.
O projeto ''Educando Para a Diversidade'', que iniciou no último dia 15, ainda engloba o segundo módulo da capacitação, quando haverá o aprofundamento do tema e a entrega de manuais que podem ser solicitados pelas escolas que não participaram , e mais um seminário, ambos em junho. Ao todo participarão 150 professores. O projeto cumpre as metas estabelecidas pelo programa ''Brasil Sem Homofobia'', do Ministério da Educação, que busca amenizar a aversão aos homossexuais no cotidiano escolar, comprovada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), no estudo Juventudes e Sexualidade, feito em 2000.
O levantamento mostra que 60% dos professores não sabem como abordar a questão em sala de aula e que 35% dos pais não apóiam que seus filhos estudem no mesmo local que gays e lésbicas. Além disso, 27% dos alunos não gostariam de ter um colega de classe homossexual. ''Não que seu seja contra, mas também não acho certo. Acho estranho homem beijar homem, mulher beijar mulher'', disse uma estudante de 16 anos.
''Aqueles que são mais delicados sempre são xingados e os professores não interferem muito nisso. Alguns chegam a fazer charge ridicularizando'', relata a garota, aluna do Colégio Estadual Ivonete Martins de Souza, em Piraquara, na Região Metropolitana de Curitiba. ''Os meninos que são mais afeminados o pessoal tira sarro mesmo. Até eu já tirei, porque a gente entra na onda. Conheço um rapaz que já está mudando o comportamento dele só para não sofrer com zombaria. Ele está falando mais grosso para ficar com jeito de homem'', revela outro aluno de 17 anos.

Serviço Informações no Centro Paranaense da Cidadania pelo fone (41) 3232.1299 ou [email protected]

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