É cada vez mais comum ouvir relatos de pessoas que ''surtaram'' ao vivenciar alguma situação muito estressante. Brigas no trânsito, quebra-quebra em hospitais após longas horas de espera por atendimento e agressões físicas diante de alguma discussão estão se tornando fatos corriqueiros. Diante dessa realidade que se incorporou ao nosso cotidiano surge uma grande dúvida: como lidar com uma pessoa surtada para evitar consequências trágicas?
Segundo a psiquiatra Luciana Vargas Nunes, de Londrina, a pessoa em estado de descontrole emocional se sente fragilizada e desamparada, e por isso costuma reagir com agressividade. ''Neste momento devemos ter calma, sempre falar em tom de voz baixo, sem confrontar e perguntar se a pessoa precisa de ajuda. No geral, se respondermos no mesmo tom que a pessoa estressada, podemos levar ao escalonamento da raiva e até a consequências mais catastróficas. Se perceber que não somos ameaça, a tendência é que a pessoa se acalme'', aconselha.
Psicótico
De acordo com a médica, a exceção ocorre quando a pessoa encontra-se sob efeito de drogas ou em algum surto psicótico, quando é indicado atendimento médico. ''Embora este tipo de explosão possa acontecer em diversas situações, é claro que é mais frequente em pessoas com doença mental, como portadores de transtorno afetivo bipolar e usuários de drogas. Nestas pessoas as consequências podem ser piores'', alerta a médica.
Ela explica que são vários os fatores que desencadeiam crises de estresse. ''O descontrole é comum em portadores de doenças mentais, e ocorre mais raramente em indivíduos sem esta predisposição, que necessitam de ambientes com alto nível de estresse para que aconteça'', ressalta. ''Existem grandes diferenças individuais na forma de responder ao estresse, que depende de genética, características de personalidade, maneiras de enfrentamento ao estresse, rede de amparo, estressores de vida precoce, como perda de um dos pais ou maus-tratos na infância'', complementa Luciana.
Resposta
Além de oferecer riscos a terceiros, a pessoa que passa pelas explosões de estresse também sofre as consequências de seus atos impulsivos. ''O estresse é uma resposta adaptativa do corpo, que envolve o sistema nervoso central, endocrinológico e imunológico, liberando cortisol e adrenalina. Esta resposta leva ao aumento da frequência cardíaca, respiratória, contração da musculatura e aumento da pressão arterial'', relata. Segundo ela, quando isso ocorre com frequência, a pessoa pode vir a sofrer de depressão, ansiedade, gastrite, diarreias, dores musculares, doenças cardiovasculares, enxaqueca, disfunções sexuais e alterações do sono.
Os danos causados pelas explosões de estresse não se restringem a questões físicas. ''Os riscos psicológicos são a baixa auto-estima e auto-recriminações, decorrentes da sensação de perda de controle e imprevisibilidade'', pontua a psiquiatra. Ela destaca que as pessoas impulsivas podem sofrer problemas no trabalho, inclusive com possibilidade de demissão, dificuldade de relacionamentos afetivos, resultando em dissolução de casamentos e perda de amizades.
A psiquiatra diz que o ideal é que estas pessoas possam aprender a administrar as frustrações com psicoterapia, além de evitar uso de drogas e bebidas, que podem piorar a impulsividade. ''Existem medicações que diminuem o nível de reatividade e que podem ser usadas caso a pessoa apresente este tipo de comportamento frequentemente'', diz.
A médica ressalta ainda alguns hábitos que ajudam a evitar crises de estresse. Ela enfatiza que exercícios físicos, meditações, religiosidade ou espiritualidade, formas de lazer saudáveis, aumento de rede de amizades e o aprendizado de comportamentos mais assertivos são estratégias que podem ajudam a manter o controle emocional.

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