Donos de prostíbulos paraguaios na fronteira com o Brasil pagam 50 mil guaranis (o equivalente a R$ 25,00) por mês à Polícia Nacional para manter meninas brasileiras nesses locais sem serem incomodados. A denúncia foi feita ontem pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal e deverá constar de um relatório que será enviado ao presidente Fernando Henrique Cardoso e aos ministros da Justiça, Íris Rezende, e das Relações Exteriores, Luiz Felipe Lampreia.
Ontem, três membros da comissão - os deputados federais Dalila Figueiredo (PSDB-SP), Nilmário Miranda (PT-MG) e Padre Roque Zimmermann (PT-PR) - encerraram uma investigação que durou quatro dias na fronteira entre o Paraguai e o Brasil, com o objetivo de apurar denúncias de prostituição infantil, tráfico e escravidão de meninas brasileiras no país vizinho. A comissão visitou os consulados do Brasil em Ciudad del Este e Salto del Guairá (leia texto abaixo), fez visitas a prostíbulos - onde conseguiu resgatar uma adolescente brasileira - e ouviu relatos de prostitutas.
Segundo o reverendo Romeu Olmar Klich, presidente do Centro de Direitos Humanos (CDH) de Foz do Iguaçu, que acompanhou o trabalho dos deputados, os donos de quilombos (grandes prostíbulos com várias casas cercadas por muros altos) adotam a prática de pagar uma ‘‘taxa de segurança’’ regular à Polícia Nacional para não serem incomodados. De acordo com Klich, a polícia cobra 50 mil guaranis por mês referente a cada prostituta brasileira - entre as quais há menores de idade.
‘‘Desde 95 venho visitando essas boates como se fosse cliente e ouvi dos próprios donos a confirmação da existência dessa taxa de segurança’’, afirmou o presidente do CDH em entrevista coletiva, ontem pela manhã. O cônsul-adjunto do Brasil em Ciudad del Este, Dijalma Mariano da Silva, confirmou à Folha ter recebido denúncias sobre a existência dessa prática. ‘‘Nunca, no entanto, conseguimos comprovar essas denúncias’’, disse Mariano. ‘‘E sempre que precisamos do apoio da polícia, ela tem nos ajudado’’, completou.
O setor de Relações Públicas da Polícia Nacional em Ciudad del Este informou desconhecer denúncias da cobrança da ‘‘taxa de segurança’’ por policias.
Os deputados afirmaram que os donos de quilombos foram avisados, supostamente por policiais, da presença da comissão na fronteira, e retiraram desses locais as prostitutas brasileiras. Segundo o deputado Padre Roque, os seguranças das casas de prostituição utilizam radiotransmissores para se comunicar com a polícia.
Levantamento feito pela Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) apontou que há cerca de 1.500 meninas brasileiras em prostíbulos de Alto Paraná.

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