Comissão busca alternativa para lixo
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 28 de junho de 2006
Maigue Gueths<br>Equipe da Folha 
Curitiba Com mais de 8 milhões de toneladas de lixo recebidas em 17 anos de uso por 14 municípios da Região Metropolitana de Curitiba, o aterro da Caximba, localizado na Capital, tem no máximo mais dois anos de vida útil. A situação crítica do aterro tem sido motivo constante de preocupação das autoridades estaduais e municipais. Em 2004, o Ministério Público chegou a dar um ultimato aos municípios para que estudassem outras alternativas de destino do lixo gerado.
Dois anos depois, um trabalho coordenado pela Secretaria de Estado de Desenvolvimento Urbano (Sedu), por meio da Coordenação da Região Metropolitana de Curitiba (Comec), promete encontrar uma solução até o final do ano. Além de definir um local para construção de um novo aterro sanitário e implantar a reciclagem do lixo em todos os municípios envolvidos, o objetivo é implementar uma ou mais tecnologias para transformação do lixo domiciliar em energia ou em outros materiais que possam ser reutilizados.
A engenheira Ana Lucia Marchezetti, coordenadora de resíduos sólidos da RMC da Comec, explica que a idéia é buscar novas tecnologias que transformem o lixo urbano e, em consequencia, venham diminuir o lixo que será destinado ao aterro sanitário. Dos 26 municípios que integram a RMC, 12 geram pouco resíduo. A preocupação, segundo ela, recai sobre os outros 14. ''A população vai aumentar, as classes mais baixas, que geram pouco lixo reciclável e mais resíduos orgânicos, serão empurradas para os entornos. Esse lixo, por sua vez, gera sub-produtos que podem ser reutilizados'', diz.
''Até o final do ano precisamos de uma definição exata do que fazer, bem como uma análise das fontes dos recursos, porque não dá para esperar mais'', afirma o secretário de Desenvolvimento Urbano, Forte Netto. A urgência de se chegar a uma posição vem do fato de que o aterro da Caximba recebe diariamente 2,4 mil toneladas de lixo.
Até o final de julho, um grupo de trabalho coordenado por Ana Lucia deve concluir relatório com as propostas de tecnologias que podem ser implementadas. O documento, com informações sobre viabilidade técnica, custos, impactos ambientais, entre outras, será encaminhado ao governador Roberto Requião, para que este decida quais as melhores alternativas. Caso a experiência na Grande Curitiba dê bons resultados, projetos semelhantes devem ser implementados em outras regiões metropolitanas, como Londrina e Maringá.
Para Marilza Dias, assessoria técnica da Secretaria de Meio Ambiente de Curitiba, o avanço tecnológico para tratamento de resíduos é uma demanda das grandes cidades. Mas, para Curitiba, cidade pioneira na reciclagem de lixo domiciliar, segundo ela, qualquer alternativa tecnológica a ser adotada tem que passar, primeiro, pela reciclagem. ''Do ponto de vista ambiental, é preciso priorizar alternativas que conduzam à reciclagem. Por exemplo, a queima de resíduos, sem que haja separação antes, não é interessante'', afirma.
Marilza reconhece, no entanto, que do ponto de vista econômico, a separação do lixo é menos vantajosa. ''Há alternativas que aproveitam tudo: com a reciclagem, a compostagem do orgânico, o processamento dos rejeitos. Mas isso tem um custo bem maior do que levar o lixo só para o aterro sanitário. Por isso, o aspecto de viabilidade econômica também tem que ser estudado'', diz ela, que defende a necessidade de que os processos utilizados gerem receita.
QUATRO TECNOLOGIAS ESTÃO EM ESTUDO
Curitiba Quatro tecnologias estão sendo estudadas no Estado para reduzir o volume de lixo nos aterros. Estamos fazendo estudos para ver os custos políticos, financeiros e tecnológicos, diz a engenheira Ana Lucia Marchezetti, da Coordenação da Região Metropolitana de Curitiba (Comec). Para ajudar no debate, especialistas da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Copel e outros técnicos participaram, no mês passado, de um seminário organizado pela Secretaria de Desenvolvimento Urbano (Sedu), no qual apresentaram as tecnologias analisadas.
1. Gaseificação e Termodestruição
O professor de Engenharia Mecânica e doutor da UFPR, Marcos Carvalho Campos, apresentou uma proposta que é uma Usina de Reaproveitamento Energético de Resíduos por meio do método de gaseificação. Através de um reator nós vamos transformar sólidos em gás, aplicando vapor de água e oxigênio para gerar energia que poderá ser vendida para as indústrias, fazendo com que a usina se pague em pouco tempo, resume, acrescentando que tudo é feito com menor consumo de energia e maior reaproveitamento do calor gerado.
2. Termodestruição
Resíduos da construção civil, da mineração e do processamento de pedras podem ser matéria-prima para a pavimentação de estradas. A tecnologia é defendida pelo professor e doutor Haroldo Ponte, chefe do Laboratório de Tecnologia Ambiental do Departamento de Engenharia Química da UFPR, e pelo professor do mesmo departamento, Vsévolod (Seva) Mymrine. Eles propõem a utilização de cinzas e escórias para a produção de materiais de valor. Nosso trabalho implica na termodestruição de vários tipos de resíduos juntos, sendo transformados em novos materiais e criando subprodutos de alto valor comercial, informa Ponte.
3. Pré-hidrólise
O gerente assistente da Coordenação Institucional do Meio Ambiente da Copel, Noel Massinhan Levy, falou do processo da pré-hidrólise, que é a decomposição da matéria orgânica presente no lixo através da ação de ácidos. Após a reação, a matéria vira um produto homogêneo em forma de pó. Trata-se, segundo ele, de um combustível de alto poder calorífico que pode ser usado posteriormente para gerar energia. O método é aplicado principalmente para resíduos ricos em celulose, como papelão e papel não recicláveis, poda de árvore e restos de comida.
4. Compostagem
A professora adjunta Maria Cristina Braga, do Departamento de Engenharia Química da UFPR, discorreu sobre o processo de compostagem do lixo, que é a decomposição da matéria orgânica em presença de material biológico. De acordo com ela, a compostagem de resíduos sólidos das grandes cidades é parecida com a feita para os jardins, só que em larga escala. Ela disse que o tempo para a decomposição da matéria orgânica por esse processo varia de 90 a 120 dias, salientando que no entorno das usinas de compostagem é inevitável o mau cheiro.


