Valmir Denardin
De Foz do Iguaçu
Movidos por boas intenções, os turistas estão contribuindo para tornar os quatis que vivem na área das Cataratas do Iguaçu obesos e com problemas dentários precoces. Essas são as primeiras indicações de uma pesquisa, inédita no País, iniciada em setembro de 1996, e que deverá ser concluída no primeiro semestre do próximo ano.
Depois do conjunto de 275 saltos, os quatis se tornaram, ao longo dos anos, a principal atração da área do Parque Nacional do Iguaçu aberta à visitação. Para se aproximar dos animais, brincar e obter uma boa foto, os visitantes passaram a dar a eles parte da comida e até das bebidas que levam para um lanche durante o passeio.
Hoje, já ‘‘viciados’’ nas guloseimas dos humanos, os quatis chegam a atacar as bolsas de quem se recusa a entregar os alimentos espontaneamente. ‘‘Se a gente não der, eles roubam’’, desculpa-se a comerciante argentina Claudia Manasero, de 32 anos, que visitava as Cataratas pela terceira vez. Claudia e seus três filhos brindaram um grupo de quatis com salgadinhos de milho e até Coca-Cola.
Promovida pela Associação Pró-Carnívoros (organização não-governamental) ambientalista sediada em São Paulo) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) – órgão federal que administra o parque –, a pesquisa está estudando, por amostragem, os hábitos dos cerca de 250 quatis que vivem na área das Cataratas. Já foram avaliados 70 animais, por meio de pesagem, coleta de sangue e fezes e da observação de seu comportamento.
‘‘Ainda não temos as conclusões, mas já é possível afirmar que alguns animais jovens já apresentam problemas dentários e peso acima da média’’, afirma a veterinária Valéria Conforti, de 31 anos, coordenadora do projeto Carnívoros do Iguaçu. Foram constatados cáries, tártaro, gengivite e até perda de dentes em indivíduos a partir de um ano de vida. Segundo a literatura especializada, entre os quatis que têm alimentação adequada os problemas dentários só começam a aparecer a partir dos três anos. A média de vida da espécie é de 20 anos.
Outra constatação é a ocorrência da obesidade. Já foram capturados quatis com até oito quilos – 15% acima da média para um adulto, que é de sete quilos. Além de ser inadequados para o organismo dos animais, os alimentos dados pelos turistas são de ‘‘má qualidade’’ nutricional.
Salgadinhos, batata frita, biscoitos, sorvetes e refrigerantes são ricos em carboidratos, que favorecem o acúmulo de gordura. ‘‘Os quatis são mamíferos e podem ter as mesmas doenças decorrentes da má alimentação que afetam os humanos, como o diabetes’’, afirma Valéria.
Alimentados de forma incorreta, os quatis deixam de buscar comida na mata. Essa mudança de hábito os torna sedentários e acaba favorecendo a obesidade. A dieta ‘‘natural’’ da espécie inclui frutos, sementes, insetos, pequenos roedores e minhocas. Segundo Valéria, os danos à saúde dos animais só não são maiores porque eles ainda mantêm parcialmente o hábito de comer os alimentos ‘‘naturais’’.
Após a conclusão da pesquisa, o projeto quer comparar os dados do estudo com os quatis que habitam as áreas isoladas do parque, onde não é permitida a presença humana. Não há estimativa sobre o número de animais que integram esse grupo.Visitantes ganham confiança dos animais dando comidas e bebidas; guloseimas dos humanos são de má qualidade nutricional
Christian RizziPESQUISA INÉDITAVeterinária Valéria Conforti, coordenadora do projeto Carnívoros do Iguaçu, que constatou cáries, tártaro, gengivite e até perda de dentes em quatis. No detalhe, crianças alimentam animais em um dos mirantes das Cataratas

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