COMÉRCIO PERIGOSO - Famosa praça de Londrina vira ponto de tráfico
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terça-feira, 09 de dezembro de 2003
Reportagem Local 
Mais conhecida e movimentada das praças de Londrina, cenário para brincadeira de crianças e passeios durante o dia, a Praça Marechal Floriano Peixoto (centro) adquire uma faceta nada familiar quando o sol se põe. Na semana passada, escondida, a reportagem da Folha de Londrina acompanhou a rotina no local durante duas noites e chegou à conclusão de que a necessidade de renovação da área é urgente. A partir das 23 horas, a Floriano Peixoto se torna ponto de consumo e venda de drogas.
''É Floriano de dia, Florinóia à noite'', ironizou uma pessoa que trabalha na região, utilizando uma das gírias (''nóia'') para crack. A droga é o entorpecente mais vendido na praça, e, por ser barata, tem como público cativo moradores de periferia, meninos de rua e mendigos, embora vez ou outra apareçam ''clientes'' de maior poder aquisitivo. Na primeira noite, a reportagem permaneceu no local das 22h40 às 2h30. Na segunda, das 23h20 à 1h30.
O movimento foi fraco na segunda noite, mas, na noite anterior, o comércio na praça foi tão ostensivo que chegou a lembrar uma feira. Três adolescentes, morenos, todos usando boné, foram os primeiros vendedores. Eles já estavam no local quando a reportagem chegou e foram embora por volta das 0h30. Em menos de duas horas, venderam crack para oito pessoas.
Os vendedores aparentavam ter entre 15 e 17 anos. Os compradores também pareciam ser adolescentes (usavam bonés e roupas simples) e de origem humilde. Poucos fugiram desse padrão exceções foram um rapaz branco, de cabelos crespos, camiseta regata preta e tênis de marca, que aparentava ser de classe média alta, e um homem de uns 40 anos, com boné, jaqueta escura e calça jeans. Mal arrumado, aparentava ser um mendigo.
Para facilitar eventuais fugas, os traficantes mantiveram a droga afastada do banco onde estavam sentados, escondida em sacos numa moita e dentro de uma lixeira na entrada do banheiro público. Nas vendas, o espaço para conversa foi sempre curto, com negociações que não duraram mais do que trinta segundos. Poucos foram os compradores que consumiram a droga na própria praça.
Dois deles foram uma dupla de rapazes que compraram o crack juntos. Despreocupadamente, eles prepararam seus cachimbos num banco próximo à escadaria da Avenida São Paulo. Um deles, trajando camisa do Corinthians, chegou a arrumar a droga sob a luz forte de um poste, sem nenhuma discrição, facilmente visível para qualquer pessoa dentro de um carro que passasse pela rua. Em seguida, ele se dirigiu ao banheiro; ainda na rampa, acendeu o cachimbo.
Às 0h05, chegaram outros dois rapazes para vender crack. Eles esperaram por cerca de meia hora, até que os outros traficantes saíssem do local, para começar a fazer negócio. Foi com estes jovens que o repórter da Folha conversou, fazendo-se passar por usuário.
No local, não é necessário sequer pedir para adquirir droga quando o repórter chega, um dos vendedores já grita: ''Quer um bagulho?'' Dos dois rapazes, um era negro, usava boné e bermuda, e aparentava ter 17 anos. O outro parecia ser mais velho, algo em torno de 20 anos, cabelos curtos, moreno, com cavanhaque e camiseta amarela de uma marca de cerveja. Mesmo sabendo que o comércio girava exclusivamente em torno do crack, o repórter perguntou aos traficantes se eles não teriam cocaína. Eles explicaram que só tinham crack (ou zuca, como é chamada na gíria), e indicaram bares onde o repórter podia adquirir a outra droga.
Foi difícil tirar qualquer informação dos rapazes desconfiados, eles desconversaram e pediram para o repórter (que não se identificou) se retirar. ''Pode sujar a cara (aparecer a polícia)'', justificaram. O repórter acertou uma compra de cinco papelotes de cocaína para a noite seguinte. ''Aparece, estamos sempre aí'', disse o adolescente de boné, com convicção e presteza dignas de quitandeiro. Os dois tiveram pouca sorte: até as 2h15, quando foram embora, conseguiram apenas três compradores.
A sensação de impunidade pode ser reforçada pela pouca luminosidade (para a reforma da praça, iniciada pela prefeitura em novembro, foi desligada a fiação dos postes da parte de baixo do local, o que deixou o ambiente ainda mais escuro) e pelo pouco policiamento. ''A Polícia Militar raramente dá batida aí. De um ano pra cá, acho que (os PMs) só entraram na praça uma vez. Pegaram um moleque e liberaram'', testemunhou uma pessoa que trabalha na área.
Na noite seguinte, o movimento caiu bastante: não houve circulação de drogas. Mas as duas noites tiveram algo em comum o policiamento foi praticamente inexistente. Na primeira noite, uma viatura da PM esteve na região, subindo a Avenida São Paulo à 1h40. Não parou em nenhum instante. Na segunda noite, nenhuma viatura passou pela região.


