Comércio perde clientes com Linha Verde
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sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
Thiago Alonso<br>Equipe da Folha 
Depende dos olhos de quem vê. A Prefeitura Municipal de Curitiba descreve a Linha Verde, cujo primeiro trecho está sendo inagurado hoje, às 11 horas, com a presença do prefeito Beto Richa (PSDB), como uma obra com "pistas margeadas por canteiros, ciclovia e calçadas, com paisagismo formado por 320 mil metros quadrados de grama, 2 mil árvores e 390 mil mudas de flores e um sistema de iluminação com super postes de 16 metros de altura com melhor distribuição de luz". Quem passa a pé reclama do movimento e da dificuldade de atravessar. Já comerciantes das margens da obra dizem, com ironia e amargura, que a chegada da Linha Verde "acabou" com eles.
É o caso de Maurício dos Santos, proprietário de uma loja de autopeças próxima à Estação São Pedro. Há cinco anos mantendo o negócio no local, ele diz que, de nove meses para cá, o movimento caiu perto de 70%. O motivo apontado por Santos é a falta de retorno e estacionamento: ninguém mais pára nos comércios da região. "O fluxo de carros é muito grande, em ritmo de BR. No lugar os estacionamentos, colocaram o ônibus, que também acaba se tornando perigoso para pedestres", diz ele. "Em vez de estacionamento, fizeram um monte de canteiro", ironiza.
O impacto da Linha Verde foi tão grande que Santos diz vai mudar a loja para outro local. Às margens da linha não dá mais, diz. Além disso, Santos vai tomar uma decisão drástica: pretende entrar na Justiça contra a prefeitura para pedir indenização pelos danos sofridos. Segundo ele, outros empresários vizinhos vão fazer o mesmo. "Ficou bonito, mas faltou praticidade", refere-se ao resultado final da obra.
Outro que se sentiu lesado com a obra é Antônio Teodoro, que administra um lava a jato em um posto de gasolina no mesmo local. De acordo com Teodoro, o movimento caiu cerca de 25% depois que os contornos deixaram de existir. "As pessoas da Vila São Pedro não atravessam mais para este lado", lamenta. Até a loja de conveniência do posto fechou as portas.
Além da falta de estacionamento, quem vive, trabalha ou passa pelo local reclama do grande fluxo de carros, do movimento, do barulho e da dificuldade de atravessar de um lado para o outro. Estão sendo inaugurados pouco mais de cinco quilômetros de pistas, entre os bairros Pinheirinho e Hauer. O trecho é composto de três faixas em cada sentido, além de outras que dão acesso ao comércio e aos bairros.
Nos cinco quilômetros inaugurados hoje, os únicos pontos para atravessar são nas estações de ônibus São Pedro,
Xaxim e Santa Bernadethe. Quem tem de atravessar reclama da falta de passarelas. O engenheiro Andrezej Drozdz, que vive há 38 anos na Vila Ipiranga, no Pinheirinho, elogia a Linha Verde, mas diz que faltam pontos para pedestres fazerem a travessia. "Os semáforos ficam longe uns dos outros. Os pedestres têm dificuldade para atravessar", comenta ele. "Se a pessoa não tiver pressa, ela até atravessa", brinca Antônio Teodoro.
Além do trecho entregue, o sistema viário conta mais 7,2 quilômetros de pistas em três sistemas binários de travessia e ligação entre os bairros. A Linha Verde vai permitir a implantação de mais linhas de ônibus. A previsão é que a primeira delas, ligando o Pinheirinho ao Centro, supra uma demanda de 35 mil passageiros por dia.
Procurada, a Prefeitura de Curitiba informou, através de sua assessoria de imprensa, que procurou minimizar, na medida do possível, os impactos sobre o comércio local durante as obras. Ainda não estariam instalados os semáforos inteligentes e, em breve, um grande número de pessoas deve passar pela região com as novas linhas de ônibus, o que deve causar um impacto econômico positivo na região.
A assessoria informou, ainda, que foram realizadas mais de 40 audiências públicas antes e durante as obras e que a transformação da região foi uma reivindicação da comunidade local, bem como de grande parte da população curitibana.


