O pastel é brasileiro mas as mãos que o produzem, chinesas. Desde a semana passada, o casal Pedro e Angélica (nomes brasileiros) vendem pastéis e salgados vegetarianos, em barraca de lona, montada em frente ao prédio do Sistema de Assistência à Saúde (SAS), antigo Instituto de Previdência do Estado (IPE), na rua Souza Naves (Região Central).
Naturais de Taiwan, eles estão em Londrina há sete anos. O português ainda enrolado é justificado pelo fato da família ter aprendido a língua através de dicionários e livros. Quando chegaram no Brasil, só sabiam falar inglês, além do mandarim. ''Viemos porque a terra em Taiwan é muito apertada, tudo fica em prédios. A vida de lá também era muita correria'', tenta explicar Hsu Ming Hsiung (Pedro), ainda esbarrando na difícil gramática portuguesa.
A esposa, Chueh Fen (Angélica), é quem domina melhor o idioma e oferece os alimentos aos clientes. Tudo o que é vendido é vegetariano. Tem salgados de carne de soja, apesar do recheio principal dos produtos ser queijo e palmito. ''Nós somos vegetarianos. Por isso vendemos esta comida'', afirma a vendedora, que trouxe com ela para o Brasil a mãe - que também trabalha na barraca - e o irmão - que mora na capital paulista.
Antes de armar a estrutura para vender os pastéis, eles alugavam um espaço no prédio ao lado do SAS, que foi demolido. Atualmente o terreno está em obras. Para não ficar sem emprego, os vendedores pediram autorização para a administração do serviço público. Como o imóvel é alugado e o proprietário é o Estado, a solicitação foi encaminhada ao Paraná Previdência - setor responsável -, que autorizou a instalação.
Mas o casal não é o único a depender da autorização de órgãos públicos para conseguir vender alimentos e complementar (ou garantir) o sustento familiar. Laura Dalcolli, de 42 anos, há cinco vende lanches na praça Marechal Floriano Peixoto (Área Central de Londrina). No começo, conta, teve problemas com a fiscalização, mas hoje tem alvará e todos os documentos necessários.
''A vida de quem trabalha na rua é boa porque não tem patrão; só é ruim quando chove. Também tem muita gente mal educada que acha que a gente está fazendo coisa errada'', desabafa, revelando uma realidade comum aos ambulantes. Proveniente de Paranacity (66 km ao norte de Maringá), há sete anos Laura está em Londrina. Com o sonho do emprego, ela chegou na cidade e foi trabalhar como doméstica. Hoje, vende lanches - religiosamente, como destaca - das 8 às 17 horas, diariamente. Com o dinheiro, sustenta oito pessoas, entre filhos e netos.
Com a responsabilidade de cuidar do filho de oito anos e da mãe de 60, Lídia (nome fictício), 28 anos, também sobrevive vendendo doces dentro do Terminal Urbano de Londrina. Sem autorização para o comércio, ela se arrisca diariamente para conseguir ganhar dinheiro. ''Há dois anos fico aqui de segunda a sábado. Vim porque estava sem emprego e daqui tiro o sustento da minha casa'', conta. Além da insegurança financeira, Lídia enfrenta a ameaça constante da lei: ''Quando chegam os fiscais, tenho que sair correndo''.
Apesar da dificuldade, ela garante gostar do que faz. ''A gente fica amiga dos clientes. Tem gente que é só chegar aqui que eu já digo: Hoje eu tenho o que você gosta''.

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