As famílias que há mais de 15 anos exploram o comércio de artesanato às margens da BR-376, entre Mauá da Serra e Ortigueira, no trecho conhecido como Serra do Cadeado, apesar de reclamar da crise econômica e das dificuldades das vendas, insistem em manter suas barracas na rodovia. Elas vivem na região há décadas e exploram a venda de todo tipo de artefatos de madeira e vime. Os pontos são bastante disputados e raramente ficam fechados.
Quem sobrevive do comércio à beira do asfalto alega não ter condições de encontrar emprego melhor nas cidades. E revelam que, através das vendas, tiram por mês em torno de R$ 200,00. Algumas famílias também trabalham em lavouras e têm terras na região, mas são minoria. As demais mantêm roças de milho e feijão em volta das casas, além de criações como galinhas, patos e porcos, suficiente para os momentos de crise.
Ao mesmo tempo que dizem sobreviver com o comércio, as famílias convivem com um perigo constante: o intenso movimento da rodovia e as curvas sinuosas são pontos críticos de acidentes. As barracas estão instaladas às margens da rodovia e as casas não ficam a mais do que 15 metros de distância.
Nas barracas, que em geral seguem o mesmo padrão de construção, são vendidos artesanatos confeccionados por moradores da região - e não pelos vendedores - como gamelas, colheres de pau, cestos de vime oriundos de outras localidades, artesanato indígena, frutas e flores. São raros os comerciantes que confeccionam seus próprios produtos.
É o caso de Maria Margarete Gonçalves Godoi, 28 anos, há 13 trabalhando na estrada. Parte dos produtos vendidos são adquiridos com artesãos que moram na serra, índios e até de fábricas de Santa Catarina. Ela diz que o comércio está fraco há dois anos, mas tem esperanças para 1997.
Casada, com duas filhas, diz ter medo de morar às margens da BR, mas garante que as meninas não chegam perto da estrada. Ela não sobrevive somente da venda de artesanato. ‘‘Eu estou aqui porque meu marido trabalha fora, senão já tinha desistido’’, comenta.
Para Valdecir Moreira dos Santos, 20 anos e há dois trabalhando com o comércio, vale a pena. ‘‘Antes eu trabalhava na roça, por dia. A venda dá para viver melhor, pois consigo tirar por mês pelo menos R$ 180,00’’. O ponto onde trabalha é do cunhado. Sua família explora o artesanato há mais de 10 anos em vários trechos da rodovia.
Ele diz que muitas famílias estão abandonando a estrada. ‘‘Mas sempre tem alguém interessado em iniciar as vendas’’, ressalta. Santos é um dos poucos que fabricam o que vendem. Quando pode, faz colheres de pau e gamelas.
O estudante Valdemir Rones de Oliveira, 16 anos, cuida de um ponto de venda do pai. Ele não soube informar há quantos anos a família explora o comércio na região, mas afirma que estão há mais de 30 anos na serra. ‘‘Desde pequeno eu via meu pai trabalhar aqui’’. A família de Oliveira não vive só do artesanato. Eles possuem um sítio com aproximadamente três alqueires, onde exploram a roça.
Acidentes Para quem quer morar na serra, às margens da BR-376, a convivência com o perigo é constante. Valdiva Faria dos Santos, 66 anos, conta que há um ano e meio sua barraca foi destruída por uma carreta desgovernada. Morando há 15 anos no mesmo local, nunca temeu o perigo, até o dia do acidente.
Ela relata que estava na casa, próxima da rodovia, enquanto seus netos estavam na barraca ao lado. ‘‘O caminhão perdeu o controle e destruiu a barraca. As crianças foram jogadas longe, uma neta se machucou e a varanda da minha casa foi arrancada’’. Depois do acidente passaram a dormir numa casa mais retirada da pista, mas não deixaram o local.
Olívio Moreira dos Santos, 52 anos, há 17 anos morando na região, diz que sua filha já foi atropelada quando trabalhava nas barracas, há seis anos. ‘‘Ela foi atravessar a rodovia e não viu um carro que saiu de trás de um caminhão parado. Com o impacto ela quebrou a clavícula’’, relembra. Mesmo assim, não abandonou o local.
‘‘Apesar da minha filha ter sido atropelada, a gente cuida dos netos para que não saiam na rodovia. Não temos para onde ir. O comércio está mais fraco do que nunca, mas conseguimos sobreviver com o pouco que tiramos nas vendas’’, desabafa.

mockup