Maria da Paz Santos Silva estava grávida quando mudou-se de Rosário do Ivaí (Centro-Norte) para Londrina, em meados da década de 1980. Ao chegar aqui com o marido e o filho mais velho, ela morou alguns dias na casa da cunhada até se estabelecer num cômodo construído sobre uma fossa, no Jardim Bandeirantes (Zona Oeste).
''Lá era tão pequeno que para colocar o colchão no chão à noite eu tinha que tirar o fogão da casa'', relembra a auxiliar de serviços gerais que, na tentativa de melhorar de vida, decidiu comprar o direito de morar num barraco no Jardim União da Vitória I, na época em que ainda era uma invasão.
''Lembro até hoje que pagamos 70 cruzeiros pelo barraco de lona'', diz Maria, contando que os primeiros meses na casa nova foram horríveis. ''Mas depois a Cohab cedeu madeira e tinta para construirmos as casas. Eu carreguei muita madeira nas costas e aproveitei o plástico que cobria o barraco como piso.''
Hoje, a família, que iniciou a jornada londrinense num assentamento por não ter condições de pagar aluguel, tem um documento de compra e venda da casa de três cômodos. ''Tá tudo regularizado e nunca precisamos pagar pelo terreno'', declara Maria, que já não tem mais medo de ficar sem teto.
Ela lembra que o homem que lhe vendeu o barraco tinha outras duas casas de aluguel: ''Tem quem invade só para comercializar, por isso acho que a Cohab deveria avaliar bem as famílias para as quais vai lotear. Muitos tiram a vaga de quem realmente precisa'', opina.
Vizinha de Maria, Joanita Lopes da Silva, o marido e os dois filhos também ocuparam um terreno no União da Vitória, nos anos 1980. Sem inscrição na Cohab, ela apelou para a ilegalidade para fugir do aluguel e chegou a sentir vergonha: ''Não achei correto o que fizemos, mas o desespero leva a tudo''.
Segundo ela, a vida no assentamento foi ''muito sofrida'', sem água nem luz, com as famílias dependendo de caminhão pipa. ''Meu barraco era todo remendado e era mato por todo lado.'' Uma das líderes da invasão, Joanita viu muitos ocupantes de barracos venderem seus direitos a outras famílias e se mudarem do assentamento: ''Não acho justo porque enquanto uns não têm outra saída senão invadir, muitos invadem só para ganhar dinheiro''.

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