Basta colocar os pés na casa do seu João Marcelino dos Santos, de 82 anos, para notar o sorriso no rosto e a satisfação de receber a visita da Pastoral do Idoso, que há dois anos atende cerca de 420 pessoas da terceira idade em Londrina. ''A gente leva carinho, atenção, ouve mais do que fala. Eles pegam amor pela gente, e esses minutinhos fazem a diferença. Por eles, ficaríamos a tarde toda'', conta a líder de pastoral dos jardins Maracanã e João Turquino, Ordalina Vieira de Carvalho.
Sentado no sofá ao lado das voluntárias, seu João relembra histórias de quando chegou a Londrina, há 11 anos, depois de passar 50 anos trabalhando na roça em Assaí e São Jerônimo da Serra, no Norte Pioneiro. ''Vim para cá tratar da saúde e acabei ficando. O conforto na cidade é muito maior'', garante o idoso, que fica horas e horas conversando com as amigas da pastoral.
Além do bate-papo, elas identificam os problemas dos idosos, e encaminham para os órgãos que podem atender as necessidades de alimentação, saúde e até assistência jurídica. ''Orientamos também para eles tomarem os remédios de forma correta, fazer um exercício se possível. A maioria tem acompanhamento da família, mas quanto mais atenção, melhor'', afirma Odalina.
No meio da conversa, seu João faz questão de mostrar o altar no quarto, onde reza todos os dias. ''Das cinco e meia às seis e meia, não tem quem me tira daqui. Faço minhas orações e prefiro que ninguém me incomode'', diz o idoso, mostrando as garrafas de água benta que usa para aliviar as dores no joelho.
Oração é o que também não falta na residência do casal Joaquim Américo e Terezinha Gonçalves, mais dois idosos atendido pela pastoral. Por toda a parede, imagens de santos e do Papa João Paulo II cercam a televisão, onde o casal assiste às missas no canal católico. Para Terezinha, o momento das visitas das voluntárias afasta a solidão do casal, que não tem filhos morando por perto. ''Sempre falo para elas: não precisa me trazer nada. Só delas estarem aqui conversando, ouvindo a gente, já faz um bem enorme''.
A solidão dos dois só não é maior graças ao destino. Joaquim, 83 anos, e Terezinha, 78, se conheceram há sete anos e resolveram se casar. Ela ficou quatro anos viúva do segundo casamento, enquanto ele estava viúvo há 35 anos. Os dois foram apresentados em Maringá por um sobrinho de Terezinha, e desde então levam uma vida com exemplo de companheirismo. ''A solidão é muito triste. Junto, a gente se ajuda, se completa, e é isso que importa''.
Capacitação - Segundo a coordenadora da Pastoral do Idoso em Londrina, Altina Leonargo Gouvêa, as líderes e voluntárias passam por um curso de capacitação de 15 horas antes de atender os idosos. Elas recebem dicas de tratamento, estudam o Estatuto do Idoso e ficam informadas sobre todos os órgãos que podem prestar assistência às pessoas da terceira idade.
A coordenadora reforça a idéia de que o mais importante no trabalho da pastoral não é a ajuda em alimentos ou medicamentos, mas sim no carinho dedicado aos idosos. ''A ação visa levar uma palavra amiga, ouvir as histórias de quem já fez muito pelos outros e merece uma retribuição''. Talvez seja por isso que, ao deixarmos a casa de seu João, ouvimos um singelo ''já vai?'', de quem espera ansiosamente pela próxima visita.

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