Ganhar freguesia no grito. Este parece ser o lema de dezenas de estabelecimentos comerciais da Área Central de Londrina, que usam e abusam de microfones e caixas de som para tentar atrair clientes. A proximidade entre concorrentes cria um ambiente de disputa e os limites do volume, certas vezes, são ignorados pelas lojas. A reportagem percorreu o Calçadão e trecho da Rua Sergipe, duas da principais regiões comerciais da cidade, e flagrou exemplos de propaganda sonora em dezenas de lojas.
A maioria dos comerciantes ouvidos pela Folha garante que respeita os limites impostos pelo Código de Posturas do Município. Entre os consumidores, são poucas as queixas contra o suposto excesso de som de algumas lojas. A Secretaria Municipal da Fazenda, responsável pela fiscalização, tem feito autuações frequentes para coibir desrespeito ao limite de volume. De acordo com o coordenador de fiscalização da secretaria, Olavo Barros de Azevedo Neto, três notificações foram registradas somente na semana passada.
''A fiscalização continua com frequência, na medida do possível. Atendemos todas as denúncias e reclamações, que são quase diárias'', constatou Azevedo. As notificações são feitas após a medição do volume através do decibelímetro. O máximo permitido é de 70 decibéis. ''Encontramos som atingindo até 90 decibéis'', relatou. No ano, foram cerca de 20 notificações, com ''seis ou sete'' reincidências. O desrespeito é punido com multa, que varia de R$ 46 a R$ 1,2 mil, e pode resultar até em cassação de alvará de funcionamento da loja.
A maioria dos entrevistados pela reportagem é a favor do uso de sistema de som para anúncio de ofertas e produtos. ''A cidade fica mais alegre. Para mim, o som só distrai, não atrapalha em nada. Acho que é legal'', opinou a dona-de-casa Tânia Terezinha Maia, 49 anos. A opinião é compartilhada por Luci Aparecida Piccolo Gontijo, 40, também dona-de-casa. ''Chama a atenção e não me incomoda em nada'', avaliou.
Mais do que a favor da propaganda sonora, Luci Aparecida é um exemplo da ''eficácia'' alardeada pelos comerciantes. ''Já aconteceu de estar passando na frente de uma loja, entrar e comprar só porque ouvi a oferta quando passava na rua'', contou. Já a dona-de-casa Maria Lúcia Ezidério, 40, acredita que o som não é inconveniente para os consumidores. ''O pessoal, que está preocupado em comprar, não fica incomodado com isto'', afirmou.
A voz dissonante é da dona-de-casa Janice dos Santos Lima, 47. ''Sou contra. O som das lojas acaba atrapalhando a concorrência'', declarou. ''Tem lugar que uma loja quer pôr som mais alto que a outra'', acrescentou. Os comerciantes, no entanto, acreditam que a publicidade com microfone e caixa de som é essencial para ganhar fregueses. ''É como diz o ditado. A propaganda é a alma do negócio'', resumiu o comerciante Antonio Verza Filho, gerente de uma loja de roupas no Calçadão. Segundo ele, uma oferta anunciada pode despertar a atenção e resultar numa venda até para o freguês que já está dentro do estabelecimento.
Para Verza, a propaganda sonora traz outro benefício: emprego para os locutores, que atuam nas portas das lojas. Com cinco anos no ramo, André Guarilha, 25, destaca que o profissional precisa ''ser descontraído e ter pensamento rápido.'' ''É um serviço informativo. O locutor tem de ser bem humorado e anunciar o que pode servir para o cliente específico. Se vejo uma mãe com o bebê no colo, já anuncio uma promoção de fraldas'', revelou o locutor que busca, com seu microfone, caixa de som e capacidade de comunicação com objetivo de aumentar a freguesia da loja.

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