A violência que tomou conta da Vila Yara (Zona Leste de Londrina) nos últimos anos chegou ao ápice no início da tarde de ontem, com a morte de um comerciante de 31 anos. Pouco antes das 14 horas e poucos minutos depois de abrir a sorveteria da família, Luis Carlos Gonçalves foi surpreendido por dois adolescentes armados. Já acostumado aos constantes assaltos, Gonçalves, segundo testemunhas, não costumava reagir. Mas ontem, por algum motivo, tentou correr para a residência da família, nos fundos do estabelecimento, e foi atingido por um tiro fatal quando se encontrava no corredor que divide os dois imóveis.
O comerciante, considerado por toda a vizinhança um homem tranquilo e sempre disposto a ajudar o próximo, foi morto por um projetil que perfurou sua axila direita, transfixando o tórax. Quando as equipes do Samu e Siate chegaram ao local ainda tentaram reanimá-lo, sem sucesso. Segundo informações da Polícia Militar, o crime teria sido cometido por dois adolescentes, que chegaram à Sorveteria Cremoll de bicicleta - uma delas modelo Ceci. O estabelecimento, localizado na esquina da Rua Ceará com Avenida Simon Bolivar - tem câmeras de segurança, mas Gonçalves ainda não tinha tido tempo de ligá-las.
Uma ex-funcionária da sorveteria contou à reportagem que os assaltos ao local são tão frequentes que o proprietário costumava deixar uma caixinha com ''trocados para os bandidos''. Outros comerciantes da região confirmaram a falta de segurança. ''Eu já fui assaltado tantas vezes que perdi as contas. Uma vez me trancaram no quarto com minha mulher. Em outra, estava saindo da farmácia e só ouvi a frase: 'Mata o velho'. Me joguei no chão, saí rolando e consegui escapar dos tiros. Eles não têm dó'', contou o proprietário de uma empresa, que não quis se identificar. Morador na Vila Yara há 34 anos, ele revelou que a onda de violência tomou conta da região de uns quatro anos para cá.
A proprietária de um mercado, Isabel da Silva, contou, num misto de emoção e revolta, que os moradores e comerciantes já não sabem mais o que fazer. ''Já fui assaltada mais de seis vezes. Só tiro, já deram três vezes lá dentro. Em uma delas, a bala passou a um palmo da cabeça do meu filho. A gente trabalha com o coração na mão. Meu marido tem mais de 60 anos, é um homem honesto, e vive sendo chamado de 'velho vagabundo' por eles. É revoltante, e a gente não vê solução'', desabafou a comerciante, referindo-se aos adolescentes que aterrorizam a região. Dona Isabel contou que a nora teve que fechar um armarinho por não aguentar mais os constantes assaltos.
Gangue
''Eles já são conhecidos por aqui como a 'gangue da bicicleta''', contou a professora Kátia Siloto, moradora do bairro há 11 anos. A exemplo dos comerciantes, os moradores não têm sossego, apesar da aparente tranquilidade do lugar. ''A situação só não está pior porque um vizinho ajuda a cuidar da casa do outro. É difícil o dia que alguém não é assaltado por aqui.''
A morte de Luis Carlos Gonçalves, que era solteiro e trabalhava com o pai na sorveteria, causou uma grande comoção no bairro. Até o final da tarde de ontem a polícia não tinha pistas dos adolescentes que cometeram o latrocínio. O delegado de plantão na 10 Subdivisão Policial, Manoel Pelisson, informou que não podia adiantar detalhes da investigação, e disse apenas que o caso estava sendo tratado como tentativa de roubo. A FOLHA tentou falar com o porta-voz da Polícia Militar, tenente Ricardo Eguedis, sobre a atuação dos policiais na região, mas ele não atendeu às ligações.

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